Há milhares de anos atrás nossos ancestrais aprenderam a praticar aquilo que hoje chamamos de solidariedade. Não por convenções morais ou imposições religiosas, mas pela sobrevivência, porque era preciso haver cooperação nas tarefas de caçar, guerrear ou simplesmente se proteger. Hoje, no nosso confortável mundo moderno de supermercados e casas muradas, sobreviver ficou muito mais fácil e o altruísmo deixou de ser uma necessidade coletiva e passou a ser virtude de poucos. Garantir o próprio ganho, ainda que em detrimento do bem-estar alheio, passa a ser a regra.
No entanto, quando acontecem grandes catástrofes e calamidades, quando a estrutura social desaba, parece que o instinto primal aflora e a solidariedade gratuita renasce. E no sofrimento as pessoas percebem o quanto ela pode ser prazerosa.
"O Impossível" ("The impossible", EUA/Espanha, 2012) mostra com primazia essa nova realidade, ao retratar o drama das vítimas do grande tsunami de 2004. No meio da crise, todos se ajudam. Entre aqueles que percorrem o terreno devastado em busca de sobreviventes, que os levam em suas caminhonetes para os abrigos e hospitais, que compartilham os escassos recursos, comida, roupas e até telefones, sem falar nos profissionais que se dedicam com todas as suas forças para aplacar a dor das vítimas, ainda que obviamente a recompensa financeira seja quase nula. Claro que há exceções, como aquele que se recusa a emprestar o celular porque precisa economizar bateria para fazer seus próprios contatos, ou os ladrões e saqueadores que, mesmo não aparecendo nesta história, sabemos que existem. Mas no final não passam disso: exceções, pessoas de espírito pobre que não entendem o valor - prático e moral - de ajudar.
Para o filme, três salvas de palmas. A primeira para a edição de som. A alternância entre o som ensurdecedor das ondas e o silêncio profundo e desesperador das submersões fazem o coração quase parar, aumentando exponencialmente a carga emocional (que já é enorme) da trama. A segunda para as brilhantes atuações dos protagonistas, em especial de Tom Holland no papel de Lucas, o adolescente que do dia para a noite se vê obrigado a se tornara adulto, responsável, lutador, líder, mas continua com seus medos e indecisões de criança. E a terceira para a maquiagem, que conseguiu a façanha de deixar Naomi Watts feia!
Enfim, um filme para chorar durante quase todos os 104 minutos, e para continuar pensando por vários dias.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
sábado, 13 de outubro de 2012
Ilha de Páscoa - A preparação
Malas prontas. Destino: Te Pito O Te Henúa, o umbigo do mundo, o local mais isolado do mundo, quase 4.000 km de qualquer outra região habitada. Ilha de Páscoa! Moais, polinésios, vulcões, peixes exóticos, Homens Pássaros, estarão todos lá nos esperando, e nos próximos oito dias estarei aqui contando cada passo desta viajem pelo mundo Rapa Nui.
Como não poderia deixar de ser com um bom nerd, nos acompanharão durante as 13 horas de viagem dois livros do biólogo Jarde Diamond, "Colapso" e "Armas, germes e aço" (esse último ganhados do Pulitzer) e outro, em versão kindle, dos arqueólogos Terry Hunt e Carl Lipo, "The statues that walked".
Como não poderia deixar de ser com um bom nerd, nos acompanharão durante as 13 horas de viagem dois livros do biólogo Jarde Diamond, "Colapso" e "Armas, germes e aço" (esse último ganhados do Pulitzer) e outro, em versão kindle, dos arqueólogos Terry Hunt e Carl Lipo, "The statues that walked".
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
Pico do Jaraguá
Ele é o ponto mais alto da cidade onde nasci e morei por 25 anos, e passo ao lado dele várias vezes por semana. Mas assim mesmo, nunca tinha subido até seu topo. Hoje acordei cedo e fui fazer um trekking no Pico do Jaraguá. O lugar é muito bonito, muito bem cuidado, com um centro de lazer com lago, play-ground e quadras na base e outro com mirantes e lanchonete no topo. De lá de cima, belíssima vista da capital paulista, além das serras da Cantareira, dos Cristais e até da minha querida Serra do Japi.

Subimos pela trilha do Pai Zé, considerada a mais difícil por ser bastante íngreme. Começa com um curto trecho de paralelepípedo, depois um longo percurso de terra por dentro da mata, arrematado por uma escadaria de madeira que desemboca na estrada principal, asfaltada. Interessante notar como na medida em que se sobe, o dossel da mata vai ficando cada vez mais baixo, enquanto o estrato arbustivo vai se adensando cada vez mais. A partir de certo ponto o estrato arbóreo desaparece, sobrando apenas os arbustos. No caminho tivemos a companhia de caxinguelês, macacos-prego, micos-de-tufo-branco e vários pássaros.

Mas uma espécie de primatas predominava. Caraterística por fazer muito ruído, tanto através de seu próprio aparelho fonador como de anexos variados, afugentando o resto da fauna, também tem por hábito deixar por onde passa grande quantidade de dejetos. Principalmente os feitos de derivados de petróleo. Foi interessante notar um espécime jovem colocando pedaços de biscoito de chocolate sobre uma placa que dizia “não alimente os animais”. Me fez pensar porque cargas d’água colocaram no nome científico dessa espécie o epíteto “sábio”.

Trilha do Pai Zé
Subimos pela trilha do Pai Zé, considerada a mais difícil por ser bastante íngreme. Começa com um curto trecho de paralelepípedo, depois um longo percurso de terra por dentro da mata, arrematado por uma escadaria de madeira que desemboca na estrada principal, asfaltada. Interessante notar como na medida em que se sobe, o dossel da mata vai ficando cada vez mais baixo, enquanto o estrato arbustivo vai se adensando cada vez mais. A partir de certo ponto o estrato arbóreo desaparece, sobrando apenas os arbustos. No caminho tivemos a companhia de caxinguelês, macacos-prego, micos-de-tufo-branco e vários pássaros.
Caxinguelê (Sciurus aestuans). Ordem Rodentia. Família Sciuridae
Mas uma espécie de primatas predominava. Caraterística por fazer muito ruído, tanto através de seu próprio aparelho fonador como de anexos variados, afugentando o resto da fauna, também tem por hábito deixar por onde passa grande quantidade de dejetos. Principalmente os feitos de derivados de petróleo. Foi interessante notar um espécime jovem colocando pedaços de biscoito de chocolate sobre uma placa que dizia “não alimente os animais”. Me fez pensar porque cargas d’água colocaram no nome científico dessa espécie o epíteto “sábio”.
Macaco-prego (Cebus apella). Ordem Primates. Família Cebidae.
(Comendo pão oferecido pelo seu parente menos racional)
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Meu Beagle
Malas prontas. Amanhã cedo estarei embarcando rumo à minha Meca particular. O lugar onde tudo começou, onde a mais fantástica e revolucionária teoria biológica foi germinada. Há 176 anos atracava no Arquipélago de Galápagos o navio HMS Beagle, e depois disso o mundo nunca mais foi o mesmo.
A partir de hoje esse blog se tornará um diário de viagem. Refletir sobre a Evolução e sobre todos seus desdobramentos, respirando o mesmo ar do mestre Charles será uma oportunidade única (aliás, única não, porque espero de coração voltar outras vezes) e aqui ficará registrada cada impressão, cada pensamento, além de muitas imagens desse lugar maravilhoso.
Espero contar com sua companhia.
terça-feira, 12 de julho de 2011
Mens sana in corpore sano
E que história é essa que nerd tem que ser fracote, ruim nos esportes e com mal preparo físico?
Muito antes do poeta romano Juvenal proferir a famosa frase do título, egípcios, chineses e indianos já praticavam exercícios para se preparar para as atividades do dia-a-dia, o trabalho ou a guerra, inclusive em disputas simuladas que depois deram origem aos esportes competitivos e inserindo esses exercícios em rituais, tamanha a sua importância.
Os gregos foram mais além: iam aos gymnasios devidamente despidos (gymnós = pelado) para treinar o corpo, como parte integrante do processo educacional. Já sabiam que um corpo saudável melhora a capacidade de aprendizado, fortalece o espírito, melhora a auto-estima, dá coragem e energia para enfrentar os problemas cotidianos. Além, é claro, do objetivo de criar corpos belos, já que a estética já era reconhecidamente parte importante da filosofia e da cultura.
Por sinal, foi por desprezo pela estética que a Idade Média européia dominada pelos princípios cristãos fez desaparecer a prática rotineira da ginástica, retomada logo que a Renascença floresceu, sendo Rousseau um de seus defensores, e daí foi um pulo até o desenvolvimento dos esportes organizados e do aperfeiçoamento de suas técnicas.
Hoje a ciência compreende muito bem a importância de um bom preparo físico e da prática constante de exercícios para melhorar a qualidade de vida e prevenir doenças infecciosas, metabólicas ou degenerativas, assim como para otimizar a atividade intelectual, na medida em que equilibra a mente. Sem falar que nerd que se preze, quando escolhe um esporte ou tipo de atividade física, mergulha a fundo na sua história, filosofia, desenvolvimento, biofísica, tecnologia etc., porque conhecimento nunca é demais.
segunda-feira, 4 de julho de 2011
Cobrança inteligente
Dia desses ouvi falar sobre uma proposta do governo do Estado de São Paulo de acabar com a cobrança manual nos pedágios das rodovias estaduais e implantar o sistema "Sem Parar / Via Fácil" em 100% das cancelas. Se alguém não conhece, esse sistema faz o controle da passagem do carro através de um dispositivo (tag) colado no para-brisas que aciona um sensor na cabine do pedágio. A cobrança é feita através de cobrança bancária. Hoje o sistema é opcional e cobra taxas de instalação e manutenção; caso se torne obrigatório deveria se tornar gratuito. Sem entrar no mérito de quem lucraria com essa mudança, acho que ela é extremamente inteligente. Reduz o custo de manutenção do sistema ao dispensar pessoal de cobrança, diminui as filas nos dias e horários de pico e principalmente abre espaço para formas mais inteligentes de cobrar.
Hoje a definição da posição das praças de pedágio é feita por critérios um tanto subjetivos, e inevitavelmente causam injustiças, já que o valor cobrado jamais será proporcional à distância percorrida. Com um sistema eletrônico seria possível instalar - com baixo custo - vários pontos de verificação, de forma que o sistema calcularia exatamente quanto cada veículo transitou em cada rodovia fazendo uma cobrança mais exata, e até definir tarifas diferenciadas para períodos de maior ou menor fluxo.
Coisa semelhante foi divulgada recentemente para o fornecimento público de água, em que hidrômetros eletrônicos conectados à companhia de abastecimento permitiriam calcular quanto foi gasto a cada momento. Isso permitiria também a tarifação ajustada de acordo com os dias e horários de maior demanda.
Esses dois exemplos (e poderíamos citar muitos outros) demonstram como ainda desperdiçamos tempo e recursos em métodos ineficientes, ao invés de usar tecnologias já disponíveis e acessíveis como aliadas na otimização das relações do nosso dia-a-dia.
Hoje a definição da posição das praças de pedágio é feita por critérios um tanto subjetivos, e inevitavelmente causam injustiças, já que o valor cobrado jamais será proporcional à distância percorrida. Com um sistema eletrônico seria possível instalar - com baixo custo - vários pontos de verificação, de forma que o sistema calcularia exatamente quanto cada veículo transitou em cada rodovia fazendo uma cobrança mais exata, e até definir tarifas diferenciadas para períodos de maior ou menor fluxo.
Coisa semelhante foi divulgada recentemente para o fornecimento público de água, em que hidrômetros eletrônicos conectados à companhia de abastecimento permitiriam calcular quanto foi gasto a cada momento. Isso permitiria também a tarifação ajustada de acordo com os dias e horários de maior demanda.
Esses dois exemplos (e poderíamos citar muitos outros) demonstram como ainda desperdiçamos tempo e recursos em métodos ineficientes, ao invés de usar tecnologias já disponíveis e acessíveis como aliadas na otimização das relações do nosso dia-a-dia.
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Arte corporal Nerd
Acabo de fazer mais uma tatuagem. Olhe bem pra ela e antes de continuar a ler o texto diga o que acha que ela representa.
Então, parece com o que? Uma rachadura? Um rio? Varizes, raios, fungos, o Venom? Pois eu digo que pode ser qualquer uma dessas coisas, ou muitas outras parecidas. Na verdade trata-se de um fractal, feito a partir desta figura original.
Em palavras simples, um fractal é uma figura geométrica que pode ser dividida em partes cada vez menores, indefinidamente, de modo que cada parte é uma réplica da figura toda. Uma forma de criar fractais é através de algoritmos matemáticos iterativos (no meu caso, pelo conjunto de Mandelbrot).
Mas o que me fascina nos fractais é justamente o fato de estarem presentes em várias objetos e fenômenos que encontramos no nosso dia-a-dia, como árvores, praias, raios e alienígenas amorfos simbiontes, e ao mesmo tempo poderem ser matematicamente modelados. Para mim, representam a fronteira entre o mundo real e as representações que conseguimos fazer dele através daquilo que chamamos de Ciência. Por isso decidi imprimir um deles na minha pele, para representar um dos aspectos mais importantes da minha vida, o amor pela Ciência e a crença de que ela é a maneira mais segura de adquirir conhecimento.
Coisa bizarra, isso de tatuagem científica? Eu digo que é coisa de quem busca dar significado a tudo o que faz. É claro que significado sobrenatural não serve, precisa ser buscado na razão, refletido, estudado. Longe de mim criticar ou recriminar quem tatua em si uma imagem qualquer, só porque acha bonita, afinal a estética também é fundamental na nossa vida. Ou quem escolhe figuras por algum motivo esotérico, pois cada um tem suas crenças. Há até quem fique no meio do caminho, tatuando símbolos místicos mas pouco se importando com o que representa, só pela beleza mesmo, que mal há?
Mas eu não sou assim. Escolhi outros caminhos, da Razão, da Ciência, do ceticismo, e por eles procuro seguir. Tem gente que acha esquisito, tem gente que acha tonto, tem muita gente que não entende. Dizem que é coisa de Nerd. Bom... é mesmo.
segunda-feira, 20 de junho de 2011
O Brasil está dando certo
Minha faxineira me abandonou. Consegui outra, mas só ficou duas semanas. E a nova, obviamente, vai me sair mais caro. Enquanto isso tenho ouvido muitas empresas reclamando da dificuldade de conseguir funcionários, principalmente em funções mais braçais, insalubres e pior remuneradas. De tudo isso chego a uma conclusão: o Brasil está dando certo!
Me parece que vivemos hoje um movimento de franco crescimento econômico e social, aumento geral da riqueza e melhor distribuição de riqueza. Associado a um aumento nas ofertas de emprego, os proletários brazucas estão se dando o luxo de escolher onde trabalhar.
Mas e então, quem ocupará esses espaços? Seremos alvo de novas ondas de imigração, dessa vez de países mais pobres que nós? Xenofobia nunca foi marca do espírito brasileiro, mas e se os estrangeiros se tornarem um problema social, demandando serviços saúde, habitação, transporte, etc. que o Estado não consiga suprir?
Passamos muito tempo reclamando do governo que não provê bem-estar para a população, mas ao mesmo tempo nos acostumamos a gozar dos benefícios dessa carência de bem-estar. E veja que não estou falando de ricos contra pobres. Estou falando de gente de TODAS as classes sociais se utilizando de alguma forma dos serviços de pessoas das classes mais abaixo para executar trabalhos que ela não está disposta a fazer.
Em tempos de "politicamente correto" fica difícil e pode soar hipócrita dizer que não sou preconceituoso, mas nesse caso não sou mesmo. O que estou tentando fazer é uma análise sociológica que - mesmo superficial - nos faça pensar: estamos preparados para viver num país sem pobres?
Me parece que vivemos hoje um movimento de franco crescimento econômico e social, aumento geral da riqueza e melhor distribuição de riqueza. Associado a um aumento nas ofertas de emprego, os proletários brazucas estão se dando o luxo de escolher onde trabalhar.
Mas e então, quem ocupará esses espaços? Seremos alvo de novas ondas de imigração, dessa vez de países mais pobres que nós? Xenofobia nunca foi marca do espírito brasileiro, mas e se os estrangeiros se tornarem um problema social, demandando serviços saúde, habitação, transporte, etc. que o Estado não consiga suprir?
Passamos muito tempo reclamando do governo que não provê bem-estar para a população, mas ao mesmo tempo nos acostumamos a gozar dos benefícios dessa carência de bem-estar. E veja que não estou falando de ricos contra pobres. Estou falando de gente de TODAS as classes sociais se utilizando de alguma forma dos serviços de pessoas das classes mais abaixo para executar trabalhos que ela não está disposta a fazer.
Em tempos de "politicamente correto" fica difícil e pode soar hipócrita dizer que não sou preconceituoso, mas nesse caso não sou mesmo. O que estou tentando fazer é uma análise sociológica que - mesmo superficial - nos faça pensar: estamos preparados para viver num país sem pobres?
segunda-feira, 21 de março de 2011
O Feriado
Voltando das férias, chego todo contente e animado no trabalho. A cabeça ainda vagando pelas lembranças do mar e do sol, mas cheio de disposição para recomeçar. No portão da empresa me avisam: "Ah doutor, não tem ninguém aqui hoje, é feriado, aniversário da cidade". Não sabia, já que moro em outro município, decepção total. Mas a surpresa me fez refletir sobre essa coisa de feriados. Qual a razão de se excluir um dia (na verdade vários) do calendário produtivo?
Feriados existem e existiram em todas as culturas, já que cada uma quer manter vivos na memória seus principais eventos cívicos ou religiosos. E é para isso que eles existem: para que as pessoas possam sejam dispensadas dos seus afazeres diários e se dediquem a festejar ou comemorar de alguma forma um fato ou pessoa importante. Feriados religiosos deveriam ser dias de oração, feriados cívicos deveriam ser dia de festa, mas não é isso o que se vê.
Passeando pela cidade no dia que se comemora sua fundação, não vi desfile e fanfarra, não vi festa no parque com piscina de bolinhas e algodão-doce, não vi escolas e prédios públicos enfeitados. Só vi ruas vazias e lojas fechadas. As pessoas simplesmente ficaram em casa, ou esticaram o passeio de fim-de-semana, já que é segunda-feira. As crianças não deixaram de ir à escola para participar de atividades que as ensinasse sobre a história de seu município e de seus fundadores, acredito até que nem saibam alguma coisa sobre isso. Faltaram à escola para fazer... nada.
Então qual a razão da sociedade continuar desperdiçando seu tempo e capital em dias mortos e sem significado? Arrisco um palpite: deve ter muito a ver com uma cultura de trabalho, e da relação do homem com ele, totalmente equivocada. Se Marx disse que o trabalho é a essência do homem, o capitalismo prega que o trabalho é uma mercadoria que o homem vende ao seu empregador. Ainda que eu não seja socialista militante, a primeira definição me é mais simpática. Não foi, porém, a escolhida para dirigir nossas relações profissionais. Na nossa sociedade, trabalho e vida pessoal são coisas absolutamente distintas e inconfundíveis, e é por isso que estamos sempre tentando encolher o tempo de trabalho, porque enquanto trabalhamos não estamos vivendo. Mas é por isso também que nos estafamos quando precisamos trabalhar além do esperado, e exigimos receber remuneração diferencidade por isso. Tratamos como "invasão" e nos irritamos com um telefonema do trabalho durante as férias, não porque toma nosso tempo, mas simplesmente porque "agora não é hora e não quero pensar nisso".
O trabalho é, acima de tudo, nossa contribuição para a sociedade, a base onde se constrói essa grande simbiose chamada humanidade. Não deve e não pode ser dissociado que nenhum outro aspecto da nossa vida, porque no momento em que isso acontece, deixamos de fazer parte da coletividade. Se o capitalismo foi o responsável por criar essa visão mercantilista do trabalho, acredito que ele mesmo tenha a ferramenta para revertê-la: a tecnologia.
Os novos meios de comunicação e de conexão são o caminho para permitir que o homem seja produtivo mesmo enquanto descansa e se diverte, sem prejudicar um ou outro. Aí então poderemos aproveitar um feriado para comemorar nossa cultura coletiva, e não para simplesmente fugir do serviço.
Feriados existem e existiram em todas as culturas, já que cada uma quer manter vivos na memória seus principais eventos cívicos ou religiosos. E é para isso que eles existem: para que as pessoas possam sejam dispensadas dos seus afazeres diários e se dediquem a festejar ou comemorar de alguma forma um fato ou pessoa importante. Feriados religiosos deveriam ser dias de oração, feriados cívicos deveriam ser dia de festa, mas não é isso o que se vê.
Passeando pela cidade no dia que se comemora sua fundação, não vi desfile e fanfarra, não vi festa no parque com piscina de bolinhas e algodão-doce, não vi escolas e prédios públicos enfeitados. Só vi ruas vazias e lojas fechadas. As pessoas simplesmente ficaram em casa, ou esticaram o passeio de fim-de-semana, já que é segunda-feira. As crianças não deixaram de ir à escola para participar de atividades que as ensinasse sobre a história de seu município e de seus fundadores, acredito até que nem saibam alguma coisa sobre isso. Faltaram à escola para fazer... nada.
Então qual a razão da sociedade continuar desperdiçando seu tempo e capital em dias mortos e sem significado? Arrisco um palpite: deve ter muito a ver com uma cultura de trabalho, e da relação do homem com ele, totalmente equivocada. Se Marx disse que o trabalho é a essência do homem, o capitalismo prega que o trabalho é uma mercadoria que o homem vende ao seu empregador. Ainda que eu não seja socialista militante, a primeira definição me é mais simpática. Não foi, porém, a escolhida para dirigir nossas relações profissionais. Na nossa sociedade, trabalho e vida pessoal são coisas absolutamente distintas e inconfundíveis, e é por isso que estamos sempre tentando encolher o tempo de trabalho, porque enquanto trabalhamos não estamos vivendo. Mas é por isso também que nos estafamos quando precisamos trabalhar além do esperado, e exigimos receber remuneração diferencidade por isso. Tratamos como "invasão" e nos irritamos com um telefonema do trabalho durante as férias, não porque toma nosso tempo, mas simplesmente porque "agora não é hora e não quero pensar nisso".
O trabalho é, acima de tudo, nossa contribuição para a sociedade, a base onde se constrói essa grande simbiose chamada humanidade. Não deve e não pode ser dissociado que nenhum outro aspecto da nossa vida, porque no momento em que isso acontece, deixamos de fazer parte da coletividade. Se o capitalismo foi o responsável por criar essa visão mercantilista do trabalho, acredito que ele mesmo tenha a ferramenta para revertê-la: a tecnologia.
Os novos meios de comunicação e de conexão são o caminho para permitir que o homem seja produtivo mesmo enquanto descansa e se diverte, sem prejudicar um ou outro. Aí então poderemos aproveitar um feriado para comemorar nossa cultura coletiva, e não para simplesmente fugir do serviço.
quarta-feira, 9 de março de 2011
E vos dou a vida eterna
Dia desses a bomba de gasolina do meu carro quebrou. O mecânico tirou, jogou fora, instalou uma nova e o carro estava perfeito de novo. Qual a função da bomba de gasolina? Transportar o líquido do tanque para o motor. Não é, basicamente, a mesma coisa que faz nosso coração?
Fiquei aqui pensando, e se dispuséssemos de um estoque de “peças sobressalentes” do nosso corpo, ou algum método para construí-las? Poderíamos, a cada enfermidade, simplesmente trocar células, tecidos ou órgãos com problemas por outros novos e sair andando como o meu carro, belos e saudáveis. Ficção científica? Hoje sim, mas a tecnologia avança a passos largos. Órgãos artificiais, células tronco, cirurgias menos invasivas e cruentas, acho que é questão de tempo até alcançarmos estas possibilidades. E então, seremos imortais.
Claro, talvez a morte ainda nos pregue peças. Acidentes, assassinatos e doenças infecciosas podem levar alguns de nós, mas teremos vencido aquela que talvez seja a pior e mais nefasta de todas as doenças: a velhice. Falando assim, dou a impressão que envelhecer e morrer são coisas ruins. Bem, não são. A Morte é nossa amiga, é ela quem garante o equilíbrio populacional, além de ser o motor da evolução. Pode parecer belo e romântico viver para sempre, mas quais serão as conseqüências?
Fiquei aqui pensando, e se dispuséssemos de um estoque de “peças sobressalentes” do nosso corpo, ou algum método para construí-las? Poderíamos, a cada enfermidade, simplesmente trocar células, tecidos ou órgãos com problemas por outros novos e sair andando como o meu carro, belos e saudáveis. Ficção científica? Hoje sim, mas a tecnologia avança a passos largos. Órgãos artificiais, células tronco, cirurgias menos invasivas e cruentas, acho que é questão de tempo até alcançarmos estas possibilidades. E então, seremos imortais.
Claro, talvez a morte ainda nos pregue peças. Acidentes, assassinatos e doenças infecciosas podem levar alguns de nós, mas teremos vencido aquela que talvez seja a pior e mais nefasta de todas as doenças: a velhice. Falando assim, dou a impressão que envelhecer e morrer são coisas ruins. Bem, não são. A Morte é nossa amiga, é ela quem garante o equilíbrio populacional, além de ser o motor da evolução. Pode parecer belo e romântico viver para sempre, mas quais serão as conseqüências?
Para começar, superpopulação – a mãe de todos os desastres ecológicos. Para controlá-la, serão necessárias medidas drásticas de controle de natalidade. Acabo de ler no jornal que até a China está revendo sua política de filho único, frente ao preocupante envelhecimento da população. Nessa esteira, as relações familiares precisarão ser repensadas, já que a maternidade/paternidade perderá quase toda a importância na sociedade.
E quanto aos já combalidos sistemas previdenciários? Homens eternos não poderão jamais se aposentar, porque não haverá jovens que os sustentem. Todos terão que produzir, mas para isso as relações do homem com o trabalho precisaram ser revistas. Não haverá quem agüente passar a maior parte do tempo se dedicando exclusivamente à produção de capital, esperando os dias de descanso que nunca virão.
Nem me arrisco a pensar nos desdobramentos mais filosóficos deste cenário: nossa relação com a morte, a função das religiões, os conflitos de gerações. Deverá ser uma sociedade toda nova, diferente da atual nas suas mais profundas essências. Mas um desafio para o homo sapiens e sua fantástica capacidade de se adaptar.
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
Calendários
Você acha meio maluco que cada mês tenha um número diferente de dias? E porque só fevereiro foge da regra? Porque cada dia do calendário não corresponde sempre ao mesmo dia da semanal, isso não deixaria tudo mais fácil? E porque esses nomes estranhos para os meses? Pois é, esse nosso calendário é bem confuso mesmo, mas pra entender é preciso conhecer sua história.
Diz a lenda que tudo começou quando Rômulo, o fundador de Roma, criou um calendário com 10 meses, cada um com 30 ou 31 dias, totalizando 304 dias. Como a principal função do calendário era regular a agricultura, os 61 dias do inverno ficavam de fora, porque nas frias colinas romanas eles não tinham mesmo nada para fazer nessa época. Os 4 primeiros meses foram nomeados em homenagem a deuses latinos ou etruscos– Marte, Aprus, Maia e Juno e os outro simplesmente numerados de 5 a 10.
Depois veio o rei Numa Pompílio, que tinha uma affair com uma ninfa. Seguindo os seus conselhos e inspirado no calendário grego, ele resolveu usar os ciclos lunares, e aí começou a bagunça. Os meses tinham 29 ou 31 dias, e dois novos meses foram criados ao final, com nomes em homenagem aos deuses da passagem e recomeço – Jano – e da morte e purificação – Februs. O ano ficou com 355 dias, então a cada 2 anos havia um mês extra, o Mercedonius.
Mas o ano civil ainda não batia com o ano solar e com as estações do ano, e o ditador Júlio Cesar (que muita gente ainda chama erroneamente de imperador) estava incomodado com o fato da festa da primavera cair no meio no inverno. Para corrigir ele reformulou de novo o calendário. Primeiro acertou o erro acumulado, inserindo dois meses extras no final daquele ano. Com isso, os meses de Januaris e Februaris que eram os últimos, passaram a ser os primeiros do ano seguinte. Todos os meses passaram a ter 31 e 30 dias, de forma intercalada, exceto Februaris que continuou com 29, acrescido de um dia a cada 3 anos – nosso conhecido bissexto.
O Senado romano adorou as mudanças, tanto que resolveu homenagear o ditador dando o seu nome ao sétimo mês. Alguns anos depois o Imperador Augusto percebeu o erro de cálculo e definiu o ano bissexto a cada quatro anos, e para não ficar deselegante o Senado deu a ele o oitavo mês de presente. Augusto ficou um pouco melindrado porque o mês de Julio tinha 31 dias e o seu tinha 30, então resolveu tirar um dia de Februaris e colocar em Augustus, trocando o número de dias de todos os meses subsequentes. O ano estava praticamente no seu formato atual.
Até que veio a Igreja Católica e quis dar seu pitaco. O Papa Gregório XIII achou um erro no cálculo dos romanos de 3 dias a cada 400 anos. Fez então o seguinte ajuste: excluiu 10 dias (5 a 14 de outubro de 1582, que simplesmente não existem) para corrigir o erro acumulado, e estabeleceu que o anos centenários não múltiplos de 400 (terminados em 000, 100, 200, 300, 500, 600, 700 e 900) não seriam bissextos. A mudança foi ínfima, mas como ele era papa e dada a mania de grandeza da instituição que ele representava, o calendário passou a ser chamado de Gregoriano. De início pouca gente deu bola para ele, e passados mais de 350 anos ainda havia países que não tinham adotado a mudança – o último foi a China em 1949.
Como se pode ver, a estrutura do calendário foi toda remendada com o passar dos anos, com critérios políticos e religiosos misturados a erros de cálculo astronômico. Já está mais do que na hora de uma nova reforma, à luz da ciência, da lógica e do racionalismo. Estamos abertos a propostas.
Diz a lenda que tudo começou quando Rômulo, o fundador de Roma, criou um calendário com 10 meses, cada um com 30 ou 31 dias, totalizando 304 dias. Como a principal função do calendário era regular a agricultura, os 61 dias do inverno ficavam de fora, porque nas frias colinas romanas eles não tinham mesmo nada para fazer nessa época. Os 4 primeiros meses foram nomeados em homenagem a deuses latinos ou etruscos– Marte, Aprus, Maia e Juno e os outro simplesmente numerados de 5 a 10.
Depois veio o rei Numa Pompílio, que tinha uma affair com uma ninfa. Seguindo os seus conselhos e inspirado no calendário grego, ele resolveu usar os ciclos lunares, e aí começou a bagunça. Os meses tinham 29 ou 31 dias, e dois novos meses foram criados ao final, com nomes em homenagem aos deuses da passagem e recomeço – Jano – e da morte e purificação – Februs. O ano ficou com 355 dias, então a cada 2 anos havia um mês extra, o Mercedonius.
Mas o ano civil ainda não batia com o ano solar e com as estações do ano, e o ditador Júlio Cesar (que muita gente ainda chama erroneamente de imperador) estava incomodado com o fato da festa da primavera cair no meio no inverno. Para corrigir ele reformulou de novo o calendário. Primeiro acertou o erro acumulado, inserindo dois meses extras no final daquele ano. Com isso, os meses de Januaris e Februaris que eram os últimos, passaram a ser os primeiros do ano seguinte. Todos os meses passaram a ter 31 e 30 dias, de forma intercalada, exceto Februaris que continuou com 29, acrescido de um dia a cada 3 anos – nosso conhecido bissexto.
O Senado romano adorou as mudanças, tanto que resolveu homenagear o ditador dando o seu nome ao sétimo mês. Alguns anos depois o Imperador Augusto percebeu o erro de cálculo e definiu o ano bissexto a cada quatro anos, e para não ficar deselegante o Senado deu a ele o oitavo mês de presente. Augusto ficou um pouco melindrado porque o mês de Julio tinha 31 dias e o seu tinha 30, então resolveu tirar um dia de Februaris e colocar em Augustus, trocando o número de dias de todos os meses subsequentes. O ano estava praticamente no seu formato atual.
Até que veio a Igreja Católica e quis dar seu pitaco. O Papa Gregório XIII achou um erro no cálculo dos romanos de 3 dias a cada 400 anos. Fez então o seguinte ajuste: excluiu 10 dias (5 a 14 de outubro de 1582, que simplesmente não existem) para corrigir o erro acumulado, e estabeleceu que o anos centenários não múltiplos de 400 (terminados em 000, 100, 200, 300, 500, 600, 700 e 900) não seriam bissextos. A mudança foi ínfima, mas como ele era papa e dada a mania de grandeza da instituição que ele representava, o calendário passou a ser chamado de Gregoriano. De início pouca gente deu bola para ele, e passados mais de 350 anos ainda havia países que não tinham adotado a mudança – o último foi a China em 1949.
Como se pode ver, a estrutura do calendário foi toda remendada com o passar dos anos, com critérios políticos e religiosos misturados a erros de cálculo astronômico. Já está mais do que na hora de uma nova reforma, à luz da ciência, da lógica e do racionalismo. Estamos abertos a propostas.
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Propostas para a Educação
Um político por aí tem usado como mote de suas campanhas uma proposta de Revolução na Educação. Então resolvi dar a minha contribuição para tão nobre empreita. Minhas propostas são:
1- Aumento da carga horária.
2- Aulas com formatos diversificados.
3- Rede educacional menos pulverizada.
4- Avaliação externa e padronizada.
5- Valorização do professor.
Como é muita coisa para um post só, vou começar hoje tratando do primeiro item.
Aumento da carga horária.
Lugar de criança é na escola, não à toa em casa ou vagando no shopping a tarde toda. Atividades extra-curriculares (línguas, esportes, música, etc.) são importantes, mas precisam ser integradas à educação formal. Então proponho período de 6 horas e 240 dias letivos.
A jornada diária será dividida em dois períodos: 4 horas pela manhã com aulas normais (o modelo de aula será tratado posteriormente) e 2 horas após o almoço — que será servido na própria escola — com atividades esportivas e culturais.
Ainda estou refletindo no melhor modelo para distribuir os dias letivos durante o ano. Agora estou pendendo para o formato de 48 semanas de 5 dias, ou seja, simplesmente reduzir as férias para um mês. Afinal, qual a utilidade de deixar a criança sem aula durante um quarto do ano? Descanso? Pois isso implica que o estudo é uma coisa chata e cansativa, e não é assim que deve ser.
A escola precisa ser o espaço principal de interação social do jovem, um lugar onde ele queira estar sempre. Os fins-de-semana e o mês de férias serão suficientes para manter as atividades familiares, afinal são só esses os períodos que os pais terão disponíveis, de qualquer modo. A parada anual também servirá para dar o merecido descanso aos profissionais do ensino, e para servir aos alunos como um momento de reflexão sobre o ano que passou e preparação para o próximo, uma pausa espiritual e filosófica que marque a mudança de ciclo.
Mas talvez seja interessante manter as atuais 40 semanas, em atenção à tradição nacional de férias longas, mas com 6 dias, sendo o sábado reservado a atividades especiais como festivais, seminários, torneios, feiras, passeios e viagens. Ou qualquer coisa no meio termo.
1- Aumento da carga horária.
2- Aulas com formatos diversificados.
3- Rede educacional menos pulverizada.
4- Avaliação externa e padronizada.
5- Valorização do professor.
Como é muita coisa para um post só, vou começar hoje tratando do primeiro item.
Aumento da carga horária.
Lugar de criança é na escola, não à toa em casa ou vagando no shopping a tarde toda. Atividades extra-curriculares (línguas, esportes, música, etc.) são importantes, mas precisam ser integradas à educação formal. Então proponho período de 6 horas e 240 dias letivos.
A jornada diária será dividida em dois períodos: 4 horas pela manhã com aulas normais (o modelo de aula será tratado posteriormente) e 2 horas após o almoço — que será servido na própria escola — com atividades esportivas e culturais.
Ainda estou refletindo no melhor modelo para distribuir os dias letivos durante o ano. Agora estou pendendo para o formato de 48 semanas de 5 dias, ou seja, simplesmente reduzir as férias para um mês. Afinal, qual a utilidade de deixar a criança sem aula durante um quarto do ano? Descanso? Pois isso implica que o estudo é uma coisa chata e cansativa, e não é assim que deve ser.
A escola precisa ser o espaço principal de interação social do jovem, um lugar onde ele queira estar sempre. Os fins-de-semana e o mês de férias serão suficientes para manter as atividades familiares, afinal são só esses os períodos que os pais terão disponíveis, de qualquer modo. A parada anual também servirá para dar o merecido descanso aos profissionais do ensino, e para servir aos alunos como um momento de reflexão sobre o ano que passou e preparação para o próximo, uma pausa espiritual e filosófica que marque a mudança de ciclo.
Mas talvez seja interessante manter as atuais 40 semanas, em atenção à tradição nacional de férias longas, mas com 6 dias, sendo o sábado reservado a atividades especiais como festivais, seminários, torneios, feiras, passeios e viagens. Ou qualquer coisa no meio termo.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
Estatísticas
Estatística é colocar a cabeça dentro do forno aceso e os pés num tanque de nitrogênio líquido e dizer que temperatura média está agradável.
Parece piada mas é assustadoramente real, a maioria das pessoas não faz a mínima idéia do que é estatística e como ela funciona. Vejamos um exemplo:
- Esse negócio de que fumar dá câncer é bobagem, minha vó fumou a vida inteira e não teve câncer, em compensação o tio do cunhado do meu vizinho nunca fumou e morreu de câncer.
Esse tipo de argumento é muito comum nas bocas esfumaçadas de fumantes inveterados, e costuma ser muito convincente para os mais ignorantes. Então qual é a falácia?
A coisa funciona assim: examinando a população, vamos encontrar fumantes saudáveis, fumantes doentes, não-fumantes saudáveis e não-fumantes doentes. Isso acontece porque em alguns casos o fumo não causa câncer, e em outros casos o câncer é causado por outros fatores. Mas a simples existência desses 4 grupos não quer dizer nada, o importante é a quantidade de cada um deles. Se a proporção de doentes entre os fumantes for bem maior do que a proporção de doentes entre os não-fumantes, podemos dizer que há um forte indício de que o tabagismo é causa da doença. Podemos também comparar a proporção de fumantes entre os doentes com a proporção de fumantes entre os saudáveis, é uma questão de metodologia que não vem ao caso aqui. O que vale é que a relação causa-efeito é comprovada pela estatística, e casos isolados não a invalidam.
Estatística é a arte de torturar os números até eles confessarem o que você quer.
O outro lado de não se entender as estatísticas é ser enganado por elas. Os políticos e os marqueteiros são mestres nessa arte (e os marqueteiros políticos são PhD). O governo afirma que o desemprego baixou, a oposição afirma que o desemprego subiu. Ambos apresentam números sólidos obtidos em pesquisas confiáveis. Quem está mentindo? NENHUM!!! Apenas usaram métodos diferentes, chegando assim a resultados díspares. Então concluímos que não se pode confiar em estatísticas? De forma nenhuma, elas são ferramentas importantíssimas para tomada de decisões e jamais podem ser ignoradas. O que precisam é ser entendidas. Não basta ler a conclusão, é preciso ter idéia de como os dados foram coletados e tratados.
A tempos atrás escrevi um texto sobre a frase bíblica: “A Verdade vos Libertará”. Então se você quer se ver livre de conclusões erradas, suas ou de outros, aprenda a entender os números que lhe são apresentados. Às vezes pode ser até divertido.
Parece piada mas é assustadoramente real, a maioria das pessoas não faz a mínima idéia do que é estatística e como ela funciona. Vejamos um exemplo:
- Esse negócio de que fumar dá câncer é bobagem, minha vó fumou a vida inteira e não teve câncer, em compensação o tio do cunhado do meu vizinho nunca fumou e morreu de câncer.
Esse tipo de argumento é muito comum nas bocas esfumaçadas de fumantes inveterados, e costuma ser muito convincente para os mais ignorantes. Então qual é a falácia?
A coisa funciona assim: examinando a população, vamos encontrar fumantes saudáveis, fumantes doentes, não-fumantes saudáveis e não-fumantes doentes. Isso acontece porque em alguns casos o fumo não causa câncer, e em outros casos o câncer é causado por outros fatores. Mas a simples existência desses 4 grupos não quer dizer nada, o importante é a quantidade de cada um deles. Se a proporção de doentes entre os fumantes for bem maior do que a proporção de doentes entre os não-fumantes, podemos dizer que há um forte indício de que o tabagismo é causa da doença. Podemos também comparar a proporção de fumantes entre os doentes com a proporção de fumantes entre os saudáveis, é uma questão de metodologia que não vem ao caso aqui. O que vale é que a relação causa-efeito é comprovada pela estatística, e casos isolados não a invalidam.
Estatística é a arte de torturar os números até eles confessarem o que você quer.
O outro lado de não se entender as estatísticas é ser enganado por elas. Os políticos e os marqueteiros são mestres nessa arte (e os marqueteiros políticos são PhD). O governo afirma que o desemprego baixou, a oposição afirma que o desemprego subiu. Ambos apresentam números sólidos obtidos em pesquisas confiáveis. Quem está mentindo? NENHUM!!! Apenas usaram métodos diferentes, chegando assim a resultados díspares. Então concluímos que não se pode confiar em estatísticas? De forma nenhuma, elas são ferramentas importantíssimas para tomada de decisões e jamais podem ser ignoradas. O que precisam é ser entendidas. Não basta ler a conclusão, é preciso ter idéia de como os dados foram coletados e tratados.
A tempos atrás escrevi um texto sobre a frase bíblica: “A Verdade vos Libertará”. Então se você quer se ver livre de conclusões erradas, suas ou de outros, aprenda a entender os números que lhe são apresentados. Às vezes pode ser até divertido.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Pedro, Paulo e as abelhas.
- Ô Pedro, você viu minha cueca verde, aquela box?
- Aquela que você ganhou da Belinha?
- Melhor não falar da Belinha.
- Poxa, Paulo, achei que você já tinha superado essa história.
- Superei, mas não esqueci. Aliás, vai demorar pra eu esquecer que meu irmão gêmeo se fez passar por mim pra pegar minha namorada.
- Ah, ela nem era sua namorada.
- Mas poderia vir a ser.
- E tem mais, a gente já se passou um pelo outro tantas vezes, não sei porque a crise agora.
- Passamos um pelo outro de comum acordo.
- Nem sempre. Quantas vezes eu te tirei de fria fingindo ser você, e quantas vezes você fez a mesma coisa? E se você relaxar e pensar racionalmente, com a Belinha foi exatamente isso que eu fiz, afinal você é que tinha marcado encontro com ela e furou. Aí calhou de eu estar por perto e resolvi limpar sua barra. O azar foi que ela descobriu depois.
- É, pode ser. Melhor esquecer mesmo, isso é passado. Mas ainda quero saber da minha cueca.
- Você usou ontem, deve estar pra lavar.
- Não usei não, aliás faz bastante tempo que não uso.
- Hmm, então não sei, devo ter confundido.
- Confundido o que? Ei, pera aí, você usou minha cueca?
- Pode ser que eu tenha usado, mas achei que era você.
- Ah, não me venha com essa agora. Uma coisa é você fazer os outros pensarem que você sou eu, uma coisa é você fazer minha namorada...
- Quem?
- Tá, minha provável-futura-namorada pensar que você sou eu, uma coisa é você fazer a mamãe pensar que você sou eu...
- Haha, aquela foi engraçada, e ela que sempre diz que é a única pessoa no mundo que consegue diferenciar nós dois.
- Huahuahua, verdade, foi engraçado. Mas enfim, esperar que eu acredite que você me confunde com você mesmo é demais!
- Porque? Afinal, será que nós somos mesmo duas pessoas?
- Tá me zuando?
- Claro que não. Olha só, o que caracteriza um indivíduo, o que faz dele um ser único? É exatamente a forma única como o conjunto de genes da população se arranja nele. São tantos genes, em tantos loci cromossômicos, tantas combinações diferentes que fica quase impossível a mesma combinação acontecer duas vezes, ainda mais considerando as eventuais mutações, translocações, crossing-overs, etc. É justamente essa variedade que serve de material para a Seleção Natural, graças a ela pode existir evolução. Ora, se a natureza não admite que duas pessoas tenham o mesmo código genético, então o que são os gêmeos senão UMA SÓ PESSOA?
- É, tá me zuando.
- Não tô não. Pensa bem, em que momento surge um novo indivíduo? Esqueça os conceitos morais, religiosos, filosóficos ou outros que os valham e pense na biologia pura. Se o que caracteriza o indivíduo é o código genético, então ele começa a existir no momento em que aparece a primeira célula com um código genético único, o zigoto. Essa célula pode se dividir depois em centenas, milhões, bilhões de outras células, mas todas vão carregar a mesma combinação de genes, e isso dá a elas a propriedade de pertencerem ao mesmo indivíduo. E como a gente fica nessa história? Bom, um dia nós dois fomos um único zigoto, um único indivíduo – único porque era um só e único porque era diferente de todos os outros – que depois de dividiu como qualquer outro zigoto se divide. Aí por uma falha de processo a divisão foi longe demais e as duas partes se desgrudaram, mas já vimos que os processos de divisão celular não importam na identificação de um ser, o que vale é a informação que as células filhas carregam.
- Tá bom, vou entrar na sua brincadeira. Então o que você me fala da reprodução assexuada? Em uma colônia de bactérias ou um viveiro cheio de plantas propagadas por estaquia, cada bactéria e cada planta têm o mesmo código genético. Ou sua teoria só vale para animais, ou eu não sei o que esses conjuntos são.
- Superorganismos, como as abelhas de Tautz. Ou não, talvez meu argumento só funcione mesmo com espécies sexuadas. Mas ainda vale, porque é de nós que estamos falando, e nós somos sexuados - apesar de você estar meio devagar ultimamente.
- Quer fazer o favor de não tripudiar da minha má fase?
- Ok, continuando. O fato é que se eu coloco uma luva, a luva está em mim. Não importa se está na mão esquerda ou na direita, de qualquer jeito sou EU que estou vestindo. Ainda que somente as células de uma mão sejam protegidas com as respectivas moléculas de DNA dentro delas, a informação genética da outra mão e de cada uma de todas as outras partes do corpo estará enluvada. Analogamente, não faz diferença se o Pedro ou o Paulo vestem uma cueca, é o mesmo arranjo genético que está sendo beneficiado.
- Como você viaja! Era mais fácil ter pedido a cueca, eu emprestava na boa.
- A Belinha também?
- Não enche.
- Aquela que você ganhou da Belinha?
- Melhor não falar da Belinha.
- Poxa, Paulo, achei que você já tinha superado essa história.
- Superei, mas não esqueci. Aliás, vai demorar pra eu esquecer que meu irmão gêmeo se fez passar por mim pra pegar minha namorada.
- Ah, ela nem era sua namorada.
- Mas poderia vir a ser.
- E tem mais, a gente já se passou um pelo outro tantas vezes, não sei porque a crise agora.
- Passamos um pelo outro de comum acordo.
- Nem sempre. Quantas vezes eu te tirei de fria fingindo ser você, e quantas vezes você fez a mesma coisa? E se você relaxar e pensar racionalmente, com a Belinha foi exatamente isso que eu fiz, afinal você é que tinha marcado encontro com ela e furou. Aí calhou de eu estar por perto e resolvi limpar sua barra. O azar foi que ela descobriu depois.
- É, pode ser. Melhor esquecer mesmo, isso é passado. Mas ainda quero saber da minha cueca.
- Você usou ontem, deve estar pra lavar.
- Não usei não, aliás faz bastante tempo que não uso.
- Hmm, então não sei, devo ter confundido.
- Confundido o que? Ei, pera aí, você usou minha cueca?
- Pode ser que eu tenha usado, mas achei que era você.
- Ah, não me venha com essa agora. Uma coisa é você fazer os outros pensarem que você sou eu, uma coisa é você fazer minha namorada...
- Quem?
- Tá, minha provável-futura-namorada pensar que você sou eu, uma coisa é você fazer a mamãe pensar que você sou eu...
- Haha, aquela foi engraçada, e ela que sempre diz que é a única pessoa no mundo que consegue diferenciar nós dois.
- Huahuahua, verdade, foi engraçado. Mas enfim, esperar que eu acredite que você me confunde com você mesmo é demais!
- Porque? Afinal, será que nós somos mesmo duas pessoas?
- Tá me zuando?
- Claro que não. Olha só, o que caracteriza um indivíduo, o que faz dele um ser único? É exatamente a forma única como o conjunto de genes da população se arranja nele. São tantos genes, em tantos loci cromossômicos, tantas combinações diferentes que fica quase impossível a mesma combinação acontecer duas vezes, ainda mais considerando as eventuais mutações, translocações, crossing-overs, etc. É justamente essa variedade que serve de material para a Seleção Natural, graças a ela pode existir evolução. Ora, se a natureza não admite que duas pessoas tenham o mesmo código genético, então o que são os gêmeos senão UMA SÓ PESSOA?
- É, tá me zuando.
- Não tô não. Pensa bem, em que momento surge um novo indivíduo? Esqueça os conceitos morais, religiosos, filosóficos ou outros que os valham e pense na biologia pura. Se o que caracteriza o indivíduo é o código genético, então ele começa a existir no momento em que aparece a primeira célula com um código genético único, o zigoto. Essa célula pode se dividir depois em centenas, milhões, bilhões de outras células, mas todas vão carregar a mesma combinação de genes, e isso dá a elas a propriedade de pertencerem ao mesmo indivíduo. E como a gente fica nessa história? Bom, um dia nós dois fomos um único zigoto, um único indivíduo – único porque era um só e único porque era diferente de todos os outros – que depois de dividiu como qualquer outro zigoto se divide. Aí por uma falha de processo a divisão foi longe demais e as duas partes se desgrudaram, mas já vimos que os processos de divisão celular não importam na identificação de um ser, o que vale é a informação que as células filhas carregam.
- Tá bom, vou entrar na sua brincadeira. Então o que você me fala da reprodução assexuada? Em uma colônia de bactérias ou um viveiro cheio de plantas propagadas por estaquia, cada bactéria e cada planta têm o mesmo código genético. Ou sua teoria só vale para animais, ou eu não sei o que esses conjuntos são.
- Superorganismos, como as abelhas de Tautz. Ou não, talvez meu argumento só funcione mesmo com espécies sexuadas. Mas ainda vale, porque é de nós que estamos falando, e nós somos sexuados - apesar de você estar meio devagar ultimamente.
- Quer fazer o favor de não tripudiar da minha má fase?
- Ok, continuando. O fato é que se eu coloco uma luva, a luva está em mim. Não importa se está na mão esquerda ou na direita, de qualquer jeito sou EU que estou vestindo. Ainda que somente as células de uma mão sejam protegidas com as respectivas moléculas de DNA dentro delas, a informação genética da outra mão e de cada uma de todas as outras partes do corpo estará enluvada. Analogamente, não faz diferença se o Pedro ou o Paulo vestem uma cueca, é o mesmo arranjo genético que está sendo beneficiado.
- Como você viaja! Era mais fácil ter pedido a cueca, eu emprestava na boa.
- A Belinha também?
- Não enche.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
Analfabetos científicos
Século 21 a.C. Os babilônios já sabiam que a posição das estrelas em determinado horário varia de forma cíclica ao longo do ano, uma consequência do movimento de translação da terra. Resolvem então dividir a região equatorial do céu em 12 partes iguais, dar a cada uma o nome de um ser mitológico e chamar esse arranjo todo de Zodíaco. Determinam que a posição do sol no dia do nascimento de cada pessoa tem uma forte influência sobre sua personalidade e comportamento.
Século 2 a.C. O filósofo Hiparco descobre que esse ciclo anual não é constante. Na verdade há um outro ciclo, contrário ao primeiro, que faz com que a cada ano, no mesmo dia, a posição das estrelas em relação ao sol também varie. Calcula que esse ciclo é de aproximadamente 26.000 anos, portando a cada 2170 anos o sol “anda” uma faixa zodiacal para trás (hoje se sabe que o ciclo é de 25.770 anos). Esse fenômeno é consequência de um movimento da terra chamado PRECESSÃO DOS EQUINÓCIOS e há bastante informação sobre ele na Internet. Basta googlear.
Século 21 d.C. O astrônomo estadunidense Park Kundle resolve revelar ao mundo que os signos estão errados graças ao desconhecimento do movimento de precessão por parte dos babilônios.
Olhem que interessante, um fato que já é conhecido há mais de dois mil anos. Que até os atuais astrólogos e místicos conhecem, tanto que a partir dele criaram as “eras astrológicas”. Que qualquer um que conheça algum fundamento de astronomia sabe. Que constantemente vira tema de discussão entre astrólogos, astrônomos e seus simpatizantes, de repente ganha a mídia e vira assunto polêmico, revolucionário.
Parece ter alguma coisa errada nessa história? Tem sim, aliás duas. A primeira é o absoluto analfabetismo científico que assola a humanidade. Existem os analfabetos formais, que não sabem desenhar o próprio nome; os analfabetos funcionais que não conseguem interpretar ou produzir textos elementares; os analfabetos políticos de Brecht e os meus analfabetos científicos. São pessoas que não conhecem os fundamentos da ciência, como ela funciona, para que serve, quais seus métodos, princípios e limitações. Não sabem diferenciar o conhecimento gerado pela ciência daquele fruto de outras árvores, não entendem as peculiaridades de cada um. E o pior de tudo é que são a maioria esmagadora da população.
O segundo problema é a credibilidade dos meios de comunicação de massa para esses analfabetos. Os astrônomos de Minessota fizeram a declaração “bombástica” numa entrevista à revista Time, uma publicação não especializada em ciência, escrita por jornalistas e não por cientistas. Algo como as nossas Veja e Época. Parece que os jornalistas sofrem também de um alto grau de analfabetismo científico, ou então o tom estrondoso dado a um assunto já muito batido foi má fé mesmo, barulho para vender revista. Acontece que os analfabetos leitores têem esses meios como sua única fonte de informação, e transformam tudo que há neles em verdade absoluta. E agora a Internet está cheia de páginas dizendo que Kundle et al. fizeram uma grande descoberta.
Século 2 a.C. O filósofo Hiparco descobre que esse ciclo anual não é constante. Na verdade há um outro ciclo, contrário ao primeiro, que faz com que a cada ano, no mesmo dia, a posição das estrelas em relação ao sol também varie. Calcula que esse ciclo é de aproximadamente 26.000 anos, portando a cada 2170 anos o sol “anda” uma faixa zodiacal para trás (hoje se sabe que o ciclo é de 25.770 anos). Esse fenômeno é consequência de um movimento da terra chamado PRECESSÃO DOS EQUINÓCIOS e há bastante informação sobre ele na Internet. Basta googlear.
Século 21 d.C. O astrônomo estadunidense Park Kundle resolve revelar ao mundo que os signos estão errados graças ao desconhecimento do movimento de precessão por parte dos babilônios.
Olhem que interessante, um fato que já é conhecido há mais de dois mil anos. Que até os atuais astrólogos e místicos conhecem, tanto que a partir dele criaram as “eras astrológicas”. Que qualquer um que conheça algum fundamento de astronomia sabe. Que constantemente vira tema de discussão entre astrólogos, astrônomos e seus simpatizantes, de repente ganha a mídia e vira assunto polêmico, revolucionário.
Parece ter alguma coisa errada nessa história? Tem sim, aliás duas. A primeira é o absoluto analfabetismo científico que assola a humanidade. Existem os analfabetos formais, que não sabem desenhar o próprio nome; os analfabetos funcionais que não conseguem interpretar ou produzir textos elementares; os analfabetos políticos de Brecht e os meus analfabetos científicos. São pessoas que não conhecem os fundamentos da ciência, como ela funciona, para que serve, quais seus métodos, princípios e limitações. Não sabem diferenciar o conhecimento gerado pela ciência daquele fruto de outras árvores, não entendem as peculiaridades de cada um. E o pior de tudo é que são a maioria esmagadora da população.
O segundo problema é a credibilidade dos meios de comunicação de massa para esses analfabetos. Os astrônomos de Minessota fizeram a declaração “bombástica” numa entrevista à revista Time, uma publicação não especializada em ciência, escrita por jornalistas e não por cientistas. Algo como as nossas Veja e Época. Parece que os jornalistas sofrem também de um alto grau de analfabetismo científico, ou então o tom estrondoso dado a um assunto já muito batido foi má fé mesmo, barulho para vender revista. Acontece que os analfabetos leitores têem esses meios como sua única fonte de informação, e transformam tudo que há neles em verdade absoluta. E agora a Internet está cheia de páginas dizendo que Kundle et al. fizeram uma grande descoberta.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
O novo livro
Responda depressa, quando foi que surgiu a inovação tecnológica mais revolucionária da História? Difícil escolher uma data, mas acho que 1455 é um grande candidato. Não sabe o que aconteceu nesse ano? Foi quando Johannes Gutenberg concluiu seu primeiro livro impresso, o primeiro que a humanidade já vira. Bom, na verdade houve outros, mas o sistema de Gutenberg permitiu algo novo: a escala. Agora era possível fazer centenas de cópias de um mesmo texto, dando a milhares de pessoas a possibilidade de conhecê-lo a um custo razoável. Finalmente o conhecimento estava popularizado. E o mais incrível é que assim continuou por mais de 550 anos! Poucas invenções sobreviveram tanto tempo sem serem substituídas por algo mais moderno. É claro que os livros de hoje não são impressos em prensas de uva com tipos de chumbo fundido, mas a base é a mesma, o papel encadernado. Pelo menos até agora.
Há tempos vem se discutindo se o computador vai acabar com o livro, discussões de gente graúda, às vezes bem acaloradas - até Umberto Eco tem um texto excelente sobre o assunto que inicia na Biblioteca de Alexandria - em que o papel costuma ser defendido com argumentos românticos sobre impressões táteis, olfatórias e sentimentais. Eu mesmo sou um bibliófilo inveterado, compro mais livros do que consigo ler e sinto muita dor no coração quando tenho que me desfazer de algum. Isso tudo até é verdade, mas só quem já se acostumou a manipular livros físicos criou com o tempo uma relação emocional com eles. Se o livro for substituído por algo melhor as novas gerações não vão se habituar com ele. Só para ilustrar, podemos lembrar o que aconteceu com o disco de vinil, que hoje se contenta em ser objeto de colecionador e onda cult. Ninguém com menos de 25 anos sente saudade deles.
Outro argumento é a praticidade, mobilidade, conforto físico e visual. Outras verdades, mas é justamente aí que estão os desafios que deverão ser transpostos pela tecnologia que se pretender substituta do papel encadernado.
2010 será o ano dos tablets - todos os fabricantes de hardware querem desenvolver o seu e os programadores estão ávidos para lançarem aplicativos. Antes deles apareceram os e-books para web, os e-readers, a e-ink (que será ótima quando for colorida). Parece que estamos no caminho certo, as tecnologias estão convergindo, se aprimorando, reduzindo custo.
Em breve encontraremos um formato com a mesma mobilidade e conforto do livro de papel, então o próximo passo deverá ser a ampliação da oferta de títulos em formato eletrônico. Textos novos e também aqueles contidos nos velhos, surrados e empoeirados blocos de papel esperando para serem transcritos para o novo meio. Só que agora não mais pelos quase tão velhos monges copistas medievais, desempregados por Gutenberg.
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Meu novo hobby
Coisa de nerd ficar arrumando hobby né? Pois durante o feriado de Ano Novo descobri uma nova diversão: a ornitologia fotográfica. Na verdade eu já vinha pensando em lidar com isso há algum tempo e tinha até alguns livros sobre o assunto guardados na estantes. Como o lugar tinha pássaros lindos e as fotos ficaram ótimas, resolvi fazer a identificação. Como obra de principiante, aí vão algumas espécies bastante comuns da região Sudeste.
Lavadeira-mascarada ou Lavadeira-de-nossa-senhora (Fluvicola nengeta). Ordem Passeriforme. Subordem Tyranni [=Suboscines]. Familia Tyrannidae. Subfamilia Tyranninae.

Coruja-buraqueira ou coruja-do-campo (Speotyto cunicularia). Ordem Strigiformes. Família Strigidae.

Canário-da-terra (Sicalis flaveola). Ordem Passeriformes. Subordem Passari [=Oscines]. Família Fringillidae. Subfamília Emberizinae. Tribo Thraupini.
Canário-da-terra (Sicalis flaveola). Ordem Passeriformes. Subordem Passari [=Oscines]. Família Fringillidae. Subfamília Emberizinae. Tribo Thraupini.
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
Resoluções de ano novo
Talvez eu seja óbvio, mas a primeira resolução será escrever com frequência rigorosa neste blog (Acho que todo mundo que tem um blog dormente diz isso no começo do ano).
Então vamos começar.
Resolvi esse ano ser um usuário da tecnologia. "Como assim?", você me pergunta, "Você se autointitula nerd e agora vem me dizer que não usava tecnologia?" Não é isso, eu uso sim, e bastante. Me considero até um conhecedor avançado, mas cheguei à conclusão que não uso de forma efetiva. E mais, que pouca gente usa.
Vamos do começo: o que é tecnologia? É qualquer ferramenta que permite executar tarefas com menos esforço, menos tempo, menos custo ou menos perdas do que se fosse executada sem ela. E você percebe o quanto você usa seus gadgets para firulas, sem objetivo prático. Pois bem, é por isso que agora vou usar a eletrônica, a informática, as telecomunicações para o fim a que se destinam - aumentar a eficiência das coisas que faço.
Mas agora vem a parte mais divertida da história, o que é eficiêcia? É uma relação entre o volume de recursos gasto numa tarefa (tempo, dinheiro, mão-de-obra, etc) e o volume de resultados obtidos por ela. Então, a tecnologia serve para conseguir mais resultados com menos recursos, certo? Mais ou menos...
Pra começar, uma tecnologia pode ser hábil em economizar um determinado recurso e ao mesmo tempo gastar mais de outro. Por exemplo, pode ser mais rápido mandar um SMS para sua vizinha, mas com certeza é mais caro do que uma bilhete deixado debaixo da porta. Então é preciso escolher que recurso se quer economizar. Eu já decidi: o tempo. Quero usar a tecnologia para ganhar tempo.
Outra questão é que a tecnologia melhora a relação entre recurso e resultado, mas isso pode ser visto de duas formas: Mais resultado com os mesmos recursos ou menos recursos para o mesmo resultado. Ou então um pouco de cada, num continuum entre os extremos. Pra o meu recurso-chave, o tempo, geralmente a regra - ditada por nerds e executivos - é usar a tecnologia para fazer mais coisas no exíguo tempo disponível. Pois eu não quero isso, quero simplesmente cumprir minhas obrigações em menos tempo, e com isso vai fazer sobrar tempo. Esse tempo extra será usado para as coisas que fazem a vida valer a pena: viajar, estudar, namorar, ler, filosofar, andar de moto, de cavalo, de bicicleta, cantar e tocar. Enfim, seguir o conselho de De Masi.
Então vamos começar.
Resolvi esse ano ser um usuário da tecnologia. "Como assim?", você me pergunta, "Você se autointitula nerd e agora vem me dizer que não usava tecnologia?" Não é isso, eu uso sim, e bastante. Me considero até um conhecedor avançado, mas cheguei à conclusão que não uso de forma efetiva. E mais, que pouca gente usa.
Vamos do começo: o que é tecnologia? É qualquer ferramenta que permite executar tarefas com menos esforço, menos tempo, menos custo ou menos perdas do que se fosse executada sem ela. E você percebe o quanto você usa seus gadgets para firulas, sem objetivo prático. Pois bem, é por isso que agora vou usar a eletrônica, a informática, as telecomunicações para o fim a que se destinam - aumentar a eficiência das coisas que faço.
Mas agora vem a parte mais divertida da história, o que é eficiêcia? É uma relação entre o volume de recursos gasto numa tarefa (tempo, dinheiro, mão-de-obra, etc) e o volume de resultados obtidos por ela. Então, a tecnologia serve para conseguir mais resultados com menos recursos, certo? Mais ou menos...
Pra começar, uma tecnologia pode ser hábil em economizar um determinado recurso e ao mesmo tempo gastar mais de outro. Por exemplo, pode ser mais rápido mandar um SMS para sua vizinha, mas com certeza é mais caro do que uma bilhete deixado debaixo da porta. Então é preciso escolher que recurso se quer economizar. Eu já decidi: o tempo. Quero usar a tecnologia para ganhar tempo.
Outra questão é que a tecnologia melhora a relação entre recurso e resultado, mas isso pode ser visto de duas formas: Mais resultado com os mesmos recursos ou menos recursos para o mesmo resultado. Ou então um pouco de cada, num continuum entre os extremos. Pra o meu recurso-chave, o tempo, geralmente a regra - ditada por nerds e executivos - é usar a tecnologia para fazer mais coisas no exíguo tempo disponível. Pois eu não quero isso, quero simplesmente cumprir minhas obrigações em menos tempo, e com isso vai fazer sobrar tempo. Esse tempo extra será usado para as coisas que fazem a vida valer a pena: viajar, estudar, namorar, ler, filosofar, andar de moto, de cavalo, de bicicleta, cantar e tocar. Enfim, seguir o conselho de De Masi.
Essa é a resolução de ano novo, espero que não morra antes do carnaval. Assim como este blog.
Feliz 2011 para todos!
segunda-feira, 10 de maio de 2010
Momento Saraiva
Me desculpem se vou parecer pedante, mas é fato: a burrice me irrita. Sei que inteligência - como qualquer outra característica biológica - obedece a uma distribuição normal, portanto não se pode culpar alguém por não ter muito dela. É um sujeito estatisticamente azarado.
Mas há limites. Situações ridículas como estas que conto abaixo são fruto de uma total despreocupação em fazer o cérebro funcionar, e considero um verdadeiro desrespeito ao interlocutor. Vejam se não concordam comigo:
1 - Loja de shopping, acessórios para jovens. Escolhi o produto e fui até o caixa pagar. A atendente, jovem também, confirma o valor e eu pergunto se é possível parcelar. E ela me informa que para este valor é possível parcelar em até... UMA VEZ!!! Não foi brincadeira, não foi mal-entendido. Perguntei de novo, confirmei, insisti, e ela reticente me disse que era isso mesmo. Eu podia pagar à vista, ou então parcelar, mas em até uma vez.
2 - Lanchonete de beira de estrada, dessas grandes redes. Pedi um chocolate quente. "Pequeno ou médio?", me pergunta a balconista. Falei que queria o grande. Mas NÃO EXISTE GRANDE!!!. Ora, se só existem dois tamanhos, um será o pequeno, e o outro o grande. Médio deve ser uma coisa intermediária entre os dois. É como dizer que a pessoa tem dois filhos: o primogênito e o do meio. Só. Não tem o caçula.
3 - Recebi uma correspondência por SEDEX 10. No condomínio onde moro toda correspondência que exija confirmação de recebimento é colhida pela administração, que coloca um bilhete de aviso na caixa de correio do morador. Este deve então se dirigir ao escritório, pegar a encomenda e assinar um livro de recebimento. Como minha correspondência já havia sido postada há uma semana e eu ainda não recebera o aviso, fui até a administração. Minha encomenda estava lá há 6 dias. A secretária me informou que para documentos em SEDEX 10 eles não colocam o bilhete, mas ligam para o morador avisando. Ela me ligou mas ninguém atendeu. Eu disse que o meu interfone estava com defeito há alguns dias, com a campainha disparando, por isto estava fora do gancho. Ela me disse que isto estava acontecendo com todos os interfones do meu bloco. ELA SABIA!!! E CONTINUAVA ME LIGANDO!!!
Me desculpem de novo, mas não dá pra não ficar irritado. TOLERÂNCIA ZERO!!!
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Responsabilidade social
O prefeito de São Paulo, Giberto Kassab, acaba de aprovar projeto que exigirá de quem construir na cidade empreendimentos que gerem muito tráfego, como shopping-centers, igrejas e edifícios comerciais ou residenciais, investimentos no trânsito da região. Apesar de todas as ressalvas que faço ao prefeito, acho que dessa vez acertou em cheio. Isso sim é responsabilidade social, de verdade. Vai além de doar algumas migalhas ao Criança Esperança ou cortar a grama da praça em frente à empresa.
Acredito que uma empresa, sem prejuízo de seu objetivo maior que é dar lucro, precisa se entender como parte de uma comunidade a quem oferece bens ou serviços, mas de quem depende diretamente. E não estou falando só dos consumidores, mas de todas as pessoas e sistemas afetados pelo seu funcionamento. Toda empresa precisa ser responsável pelas conseqüências do seu trabalho.
Se o empreendimento vai piorar o trânsito da cidade, precisa se preocupar com isso e dar sua contribuição na solução. O mesmo vale para a empresa que embala os seu produto com materiais descartáveis, para a indústria automobilística que produz veículos poluidores, para o fabricante de cigarros que enche os leitos dos hospitais públicos de doentes graves. Não basta satisfazer a necessidade do consumidor, é preciso cuidar dos "efeitos adversos" que seus produtos causam à comunidade.
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Os avanços da tecnologia
Abril de 1989, festa de aniversário em casa. Montei a playlist numa folha de caderno, separei os LPs (os que tinha em casa e os que precisei emprestar). Aparelho de som três-em-um para colocar tudo em ordem nas três fitas-cassete 90 minuto. 4,5 horas de trabalho de gravação. 4,5 horas de música ininterrupta, bastando virar ou trocar as fitas a cada 45 minutos (meu som não tinha auto-reverse). Sucesso total.
Abril de 2010, festa de aniversário na casa da minha irmã, que tem piscina e churrasqueira. Não montei a playlist, porque a quantidade de músicas disponíveis era imensa, mais fácil ir abrindo os muitos CDs um a um e ir copiando para o notebook. Depos é só ordenar e transferir para um pen-drive e ligar na porta USB do aparelho de som. Total de 152 músicas, mais de 8 horas - mesmo que a festa só dure 5. No primeiro teste o aparelho leu fora de ordem. No segundo, depois de apagar o pen-drive e copiar as músicas de novo, as últimas músicas sumiram, porque estava tudo na raiz e o aparelho só aceita 148 arquivos por pasta (de onde ele tirou esse número?). Então voltei o pen-drive para o notebook, separei as músicas em pastas menores e gravei de novo. Parece que funcionou, mas na dúvida gravei um CD. Dois dias trabalhando, nem me atrevo a contar as horas. Preciso dormir.
Dia da festa, som montado, CD a postos, músicas tocando na ordem. Até a 19, depois... parou. Parece que por alguma razão bizarra o aparelho só leu 19 arquivos. Esqueci o pen-drive em casa, então a solução é abrir o CD no mac-book da minha irmã, gravar no i-pod do meu sobrinho e conectar este (o i-pod, não o sobrinho) no aparelho de som. Nada feito, não tem cabo. Maldita Apple com seus conectores proprietários, porque se fosse um simples mini-USB eu usava o cabo da máquina fotográfica. Ainda resta a opção de gravar outro CD, mas descubro que no CD original só tem mesmo aqueles 19 arquivos. Talvez culpa do Nero, talvez de Morfeu ou de um outro nome clássico qualquer. E corre a festa com o que está disponível no porta-CDs do carro.
Moral: a tecnologia veio para resolver os problemas que não existiam antes dela.
Abril de 2010, festa de aniversário na casa da minha irmã, que tem piscina e churrasqueira. Não montei a playlist, porque a quantidade de músicas disponíveis era imensa, mais fácil ir abrindo os muitos CDs um a um e ir copiando para o notebook. Depos é só ordenar e transferir para um pen-drive e ligar na porta USB do aparelho de som. Total de 152 músicas, mais de 8 horas - mesmo que a festa só dure 5. No primeiro teste o aparelho leu fora de ordem. No segundo, depois de apagar o pen-drive e copiar as músicas de novo, as últimas músicas sumiram, porque estava tudo na raiz e o aparelho só aceita 148 arquivos por pasta (de onde ele tirou esse número?). Então voltei o pen-drive para o notebook, separei as músicas em pastas menores e gravei de novo. Parece que funcionou, mas na dúvida gravei um CD. Dois dias trabalhando, nem me atrevo a contar as horas. Preciso dormir.
Dia da festa, som montado, CD a postos, músicas tocando na ordem. Até a 19, depois... parou. Parece que por alguma razão bizarra o aparelho só leu 19 arquivos. Esqueci o pen-drive em casa, então a solução é abrir o CD no mac-book da minha irmã, gravar no i-pod do meu sobrinho e conectar este (o i-pod, não o sobrinho) no aparelho de som. Nada feito, não tem cabo. Maldita Apple com seus conectores proprietários, porque se fosse um simples mini-USB eu usava o cabo da máquina fotográfica. Ainda resta a opção de gravar outro CD, mas descubro que no CD original só tem mesmo aqueles 19 arquivos. Talvez culpa do Nero, talvez de Morfeu ou de um outro nome clássico qualquer. E corre a festa com o que está disponível no porta-CDs do carro.
Moral: a tecnologia veio para resolver os problemas que não existiam antes dela.
sábado, 24 de outubro de 2009
A Morte para um cético
Há alguns anos iniciei uma jornada de abandono das crenças religiosas rumo a um ceticismo aberto, racional e esclarecido. No meio do caminho topei um grande obstáculo intelectual: como entender e aceitar a morte numa perspectiva cética?
Quem primeiro veio em meu auxílio foi Nietzsche, me dizendo que o ateu deve aproveitar a vida ao máximo, pois não há outra a ser vivida. Bom conselho, mas insuficiente para responder a pergunta que me fazia, e que até hoje ouço daqueles que tentam me demover ou que simplesmente não entendem. Afinal, que sentido há na vida se um dia ela acaba e nada resta? Depois de alguma (não, de muita) reflexão, encontrei um caminho através da teoria da evolução e da teoria dos sistemas.
A Evolução me diz que a morte não é um fim, mas um meio, uma ferramenta da Seleção Natural. Sem a morte dos indivíduos não é possível à espécie se adaptar ao meio. Mas para aceitá-la é preciso abandonar completamente o individualismo e enxergar o ser como um elemento de um sistema maior. Aí entra a segunda teoria.
Um sistema é um conjunto de elementos que se unem com um objetivo comum. Acontece que um sistema pode ser – e na verdade quase sempre é – formado por subsistemas, e é ele próprio parte de um sistema maior. Por esta óptica fica difícil caracterizar o que é um indivíduo. Somos compostos de sistemas orgânicos, órgãos, tecidos, células, organelas, moléculas, átomos e partículas sub-atômicas, e nos agrupamos em populações, comunidades, ecossistemas, planetas, sistemas solares, galáxias e universos. Níveis de organização hierarquicamente organizados se interpenetrando. Será pura convenção considerar o corpo como o nível básico, referencial, a que se chama “indivíduo”? Talvez sim, mas que identidade há nele? Não se pode dizer que a alma é a identidade, pois sua existência já foi excluída por princípio – a resposta precisa estar na matéria. Olhando de perto, percebemos que nossa matéria é constantemente destruída e reconstruída, recebendo matéria do ambiente e a ele devolvendo, e em alguns anos de vida praticamente nenhum átomo de um indivíduo estava nele na hora de seu nascimento, então quem somos nós?
Aqui arrisco, a título de hipótese, uma definição: “indivíduo é um sistema formado por elementos que se agrupam em um dado momento, criando uma estrutura capaz de se tornar consciente, e assim se manter mesmo que os elementos sejam paulatinamente trocados por similares”. A morte seria então um momento em que a estrutura de organização destes elementos entra em colapso.
Pode-se reconhecer um punhado de falhas nesta definição, mas a mim ele parece suficiente pra solucionar meu enigma. Agora a morte não tira o sentido da vida. Ela é simplesmente um momento em que os meus átomos deixam de formar um sistema para se unirem a outros. A verdadeira vida não reside mais em mim, mas em todo o universo, e a mim ela sobreviverá. Agora eu ganho vidas passadas e vidas pós-morte, antigas prerrogativas dos crentes; minha existência passa a ter um sentido maior: de colaborar, enquanto existir, para a evolução de meu grupo e de meu mundo. Estou salvo!
Ainda há um outro elemento a discutir, algo que não é matéria, e que pode ser a chave para encontrar o sentido da existência: o conhecimento. Mas deixemos isso para outra ocasião.
Quem primeiro veio em meu auxílio foi Nietzsche, me dizendo que o ateu deve aproveitar a vida ao máximo, pois não há outra a ser vivida. Bom conselho, mas insuficiente para responder a pergunta que me fazia, e que até hoje ouço daqueles que tentam me demover ou que simplesmente não entendem. Afinal, que sentido há na vida se um dia ela acaba e nada resta? Depois de alguma (não, de muita) reflexão, encontrei um caminho através da teoria da evolução e da teoria dos sistemas.
A Evolução me diz que a morte não é um fim, mas um meio, uma ferramenta da Seleção Natural. Sem a morte dos indivíduos não é possível à espécie se adaptar ao meio. Mas para aceitá-la é preciso abandonar completamente o individualismo e enxergar o ser como um elemento de um sistema maior. Aí entra a segunda teoria.
Um sistema é um conjunto de elementos que se unem com um objetivo comum. Acontece que um sistema pode ser – e na verdade quase sempre é – formado por subsistemas, e é ele próprio parte de um sistema maior. Por esta óptica fica difícil caracterizar o que é um indivíduo. Somos compostos de sistemas orgânicos, órgãos, tecidos, células, organelas, moléculas, átomos e partículas sub-atômicas, e nos agrupamos em populações, comunidades, ecossistemas, planetas, sistemas solares, galáxias e universos. Níveis de organização hierarquicamente organizados se interpenetrando. Será pura convenção considerar o corpo como o nível básico, referencial, a que se chama “indivíduo”? Talvez sim, mas que identidade há nele? Não se pode dizer que a alma é a identidade, pois sua existência já foi excluída por princípio – a resposta precisa estar na matéria. Olhando de perto, percebemos que nossa matéria é constantemente destruída e reconstruída, recebendo matéria do ambiente e a ele devolvendo, e em alguns anos de vida praticamente nenhum átomo de um indivíduo estava nele na hora de seu nascimento, então quem somos nós?
Aqui arrisco, a título de hipótese, uma definição: “indivíduo é um sistema formado por elementos que se agrupam em um dado momento, criando uma estrutura capaz de se tornar consciente, e assim se manter mesmo que os elementos sejam paulatinamente trocados por similares”. A morte seria então um momento em que a estrutura de organização destes elementos entra em colapso.
Pode-se reconhecer um punhado de falhas nesta definição, mas a mim ele parece suficiente pra solucionar meu enigma. Agora a morte não tira o sentido da vida. Ela é simplesmente um momento em que os meus átomos deixam de formar um sistema para se unirem a outros. A verdadeira vida não reside mais em mim, mas em todo o universo, e a mim ela sobreviverá. Agora eu ganho vidas passadas e vidas pós-morte, antigas prerrogativas dos crentes; minha existência passa a ter um sentido maior: de colaborar, enquanto existir, para a evolução de meu grupo e de meu mundo. Estou salvo!
Ainda há um outro elemento a discutir, algo que não é matéria, e que pode ser a chave para encontrar o sentido da existência: o conhecimento. Mas deixemos isso para outra ocasião.
sábado, 17 de outubro de 2009
A Mulher que quero
E já que estamos num momento de ufanizar as mulheres, um pouco de poesia:
A Mulher que quero é linda, não somente porque é, mas porque se sabe.
É sábia, como somente as mulheres podem ser.
É suave, e na brandura demonstra sua força.
A Mulher que quero compartilha comigo uma vida
Sem deixar de ter sua própria.
Me quer sempre por perto, mas me permite a solidão.
Me quer sempre ao seu lado, mas me permite postar-me à sua frente
Para contemplá-la, venerá-la e idolatrá-la.
A Mulher que quero é fiel e sincera.
Mas para quê um par de palavras
Se a mentira é a única traição?
A Mulher que quero não abre mão dos benefícios de ser Mulher.
A ela eu posso servir,
Não porque necessita, mas porque me permitiu.
A ela eu sempre protejo, ou ao menos assim penso
Enquanto sou eu o protegido.
A Mulher que quero me contesta, me desafia, me estimula,
Não aceita calada o que não está bem
E nem o que está, já que tudo poderá estar melhor.
A Mulher que quero não se arrepende
Pois isso só fazem os espíritos pobres.
Não abandona seu passado
Porque o passado é a essência na qual somos moldados.
A Mulher que quero basta ser sempre, toda, somente
Mulher.
A Mulher que quero é linda, não somente porque é, mas porque se sabe.
É sábia, como somente as mulheres podem ser.
É suave, e na brandura demonstra sua força.
A Mulher que quero compartilha comigo uma vida
Sem deixar de ter sua própria.
Me quer sempre por perto, mas me permite a solidão.
Me quer sempre ao seu lado, mas me permite postar-me à sua frente
Para contemplá-la, venerá-la e idolatrá-la.
A Mulher que quero é fiel e sincera.
Mas para quê um par de palavras
Se a mentira é a única traição?
A Mulher que quero não abre mão dos benefícios de ser Mulher.
A ela eu posso servir,
Não porque necessita, mas porque me permitiu.
A ela eu sempre protejo, ou ao menos assim penso
Enquanto sou eu o protegido.
A Mulher que quero me contesta, me desafia, me estimula,
Não aceita calada o que não está bem
E nem o que está, já que tudo poderá estar melhor.
A Mulher que quero não se arrepende
Pois isso só fazem os espíritos pobres.
Não abandona seu passado
Porque o passado é a essência na qual somos moldados.
A Mulher que quero basta ser sempre, toda, somente
Mulher.
sábado, 3 de outubro de 2009
Da costela de Eva
Dia desses recebi por e-mail a seguinte piada:
O que disse Deus depois de criar o homem? Tenho que ser capaz de fazer coisa melhor.
E o que disse Deus depois de criar a mulher? A prática traz a perfeição.
Variações da anedota mais antiga, onde Deus fez primeiro o rascunho e depois a obra prima. Adorei e concordo quase totalmente. A mim não resta dúvida de que as mulheres são superiores aos homens em qualquer quesito: mais belas, mais sábias, mais eficientes, mais requintadas, mais complexas.
A única falha no argumento humorístico é que a fábula bíblica não coaduna com a observação científica. Na verdade o homem - ou para ser mais exato, o macho - deriva da fêmea, e não o contrário. No início de nossa vida fetal, somos todos anatomicamente femininos. Posteriormente, naqueles geneticamente marcados pelo escudo de marte, uma descarga de testosterona transforma os órgãos femininos em masculinos. E como a embriogênese recria a filogênese, espera-se que os seres primitivos sejam todos fêmeas. E assim é.
A história de vida no planeta se iniciou com os organismos assexuados. Neles um indivíduo recolhe material do ambiente para construir outro indivíduo semelhante, e a isso se dá o nome de reprodução. Eras depois, com o objetivo de aumentar a variabilidade genética, o que traria grande vantagem evolutiva, surgiram os organismos sexuados hermafroditas, que dispunham de duas estruturas: uma, dita feminina, fazia exatamente o que já era feito pelos seus ancestrais; outra, masculina, tinha a única função de expelir algum meio que carregasse o código genético para ser usado pela parte feminina de outro indivíduo na construção do novo ser. Mas repare que as denominações de masculino e feminino foram dadas muito tempo depois, por uma espécie que se arvorou o direito de decidir que nome teriam as coisas. Numa análise fria, o que a parte masculina faz não é de fato reprodução. Ela não participa da construção de outro indivíduo, somente fornece parte da informação necessária.
O que dizer então da geração seguinte, onde as funções de “macho” e “fêmea” passaram a ser desempenhadas por sujeitos distintos? O que ocorreu aqui foi que Mãe Natureza achou por bem criar um indivíduo incapaz de se reproduzir; um ser vivo pela metade – já que a reprodução é exatamente o que define a vida. Dizemos ter um aparelho reprodutor masculino, porque assim foi dito há séculos, quando a ciência era feita somente por machos, ou porque não encontramos nomenclatura melhor para nossos penduricalhos. Mas na verdade não temos órgão reprodutor nenhum, apenas mecanismos que expelem DNA. É da fêmea o papel de gerar, de criar, de construir.
É claro que com o tempo a evolução – e mais tarde a cultura - encontraram para nós funções mais úteis, mas que nada dizem sobre nossa origem.
Não somos rascunhos que foram posteriormente melhorados. Elas já são a obra pronta, completa e original, nós somos somente cópias, e quando fomos tirados o tonner da máquina estava acabando.
O que disse Deus depois de criar o homem? Tenho que ser capaz de fazer coisa melhor.
E o que disse Deus depois de criar a mulher? A prática traz a perfeição.
Variações da anedota mais antiga, onde Deus fez primeiro o rascunho e depois a obra prima. Adorei e concordo quase totalmente. A mim não resta dúvida de que as mulheres são superiores aos homens em qualquer quesito: mais belas, mais sábias, mais eficientes, mais requintadas, mais complexas.
A única falha no argumento humorístico é que a fábula bíblica não coaduna com a observação científica. Na verdade o homem - ou para ser mais exato, o macho - deriva da fêmea, e não o contrário. No início de nossa vida fetal, somos todos anatomicamente femininos. Posteriormente, naqueles geneticamente marcados pelo escudo de marte, uma descarga de testosterona transforma os órgãos femininos em masculinos. E como a embriogênese recria a filogênese, espera-se que os seres primitivos sejam todos fêmeas. E assim é.
A história de vida no planeta se iniciou com os organismos assexuados. Neles um indivíduo recolhe material do ambiente para construir outro indivíduo semelhante, e a isso se dá o nome de reprodução. Eras depois, com o objetivo de aumentar a variabilidade genética, o que traria grande vantagem evolutiva, surgiram os organismos sexuados hermafroditas, que dispunham de duas estruturas: uma, dita feminina, fazia exatamente o que já era feito pelos seus ancestrais; outra, masculina, tinha a única função de expelir algum meio que carregasse o código genético para ser usado pela parte feminina de outro indivíduo na construção do novo ser. Mas repare que as denominações de masculino e feminino foram dadas muito tempo depois, por uma espécie que se arvorou o direito de decidir que nome teriam as coisas. Numa análise fria, o que a parte masculina faz não é de fato reprodução. Ela não participa da construção de outro indivíduo, somente fornece parte da informação necessária.
O que dizer então da geração seguinte, onde as funções de “macho” e “fêmea” passaram a ser desempenhadas por sujeitos distintos? O que ocorreu aqui foi que Mãe Natureza achou por bem criar um indivíduo incapaz de se reproduzir; um ser vivo pela metade – já que a reprodução é exatamente o que define a vida. Dizemos ter um aparelho reprodutor masculino, porque assim foi dito há séculos, quando a ciência era feita somente por machos, ou porque não encontramos nomenclatura melhor para nossos penduricalhos. Mas na verdade não temos órgão reprodutor nenhum, apenas mecanismos que expelem DNA. É da fêmea o papel de gerar, de criar, de construir.
É claro que com o tempo a evolução – e mais tarde a cultura - encontraram para nós funções mais úteis, mas que nada dizem sobre nossa origem.
Não somos rascunhos que foram posteriormente melhorados. Elas já são a obra pronta, completa e original, nós somos somente cópias, e quando fomos tirados o tonner da máquina estava acabando.
sábado, 19 de setembro de 2009
A VOLTA - Parte Final
Acompanhe agora o espetacular desfecho da nossa história.
A preparação demorou algumas semanas, mas a coisa era tão nova, tão incomum, tão desesperadora e ao mesmo tempo excitante que para ela pareceram poucos dias. Primeiro planejar com cuidado o método. Tinha que ser tudo muito discreto, não poderia haver de maneira alguma suspeitas sobre ela. Deveria parecer um acidente, ou melhor ainda, morte natural, facilmente explicada pela doença recente. Em seguida começaram as pesquisas, pela Internet, em revistas das mais varidas, entre os conhecidos. Até que descobriu um velho índio que tinha a solução: uma poção que levaria o pobre coitado para a outra vida, não tinha gosto e era impossível de ser detectada em qualquer exame pós-morte. Comprou a preço alto um pequeno frasco e numa manhã de sábado despejou a pajelança no suco de laranja do marido.
A droga demorou algumas horas para fazer efeito. A tosse piorou, as dores se transformaram em cólicas terríveis, depois uma tontura, seguida da vômitos. Mas até a noite o pobre homem continuava tão vivo como sempre. Não tinha jeito, precisava levá-lo ao hospital. Era um tremendo risco, o crime poderia ser descoberto, talvez a poção não fosse tão invisível como garantira o xamã, mas não podia ver o homem que amava sofrendo tanto sem dar-lhe um último socorro. No hospital tudo correu ao contrário do esperado. As cólicas não passavam, a dor de cabeça ficava cada vez pior, o homem já regurgitara todo a bile que possuia, mas os espasmos não cessavam. Não estava propriamente inconsciente, mas a tontura e a confusão mental eram tantas que não conseguia mais conversar. E assim permaneceu por sete longos dias até que numa noite particularmente ruim, lá pelas três da madrugada, adormeceu tranqüilo como não fazia há vário meses. E pela manhã ... acordou melhor. Os dias seguintes foram de melhora contínua, até que voltou ao quadro inicial e recebeu alta dos médicos. A mulher estava ao mesmo tempo espantada e raivosa, não dera nada certo. Não via a hora de voltar até o índio e pedir o dinheiro de volta, além de lhe dizer poucas e boas e fazer uma tremenda propaganda negativa de seus serviços. Agora teria que começar tudo de novo.
Mas havia mais surpresas pela frente. Nos dias que se seguiram, os acessos de tosse começaram a se tornar mais brandos e mais espaçados. As dores de cabeça e pelo corpo reagiam melhor aos analgésicos, a pele começou a recobrar a cor, o apetite voltou, começou a ganhar peso. A mulher adiou a visita ao pagé, esperando para ver até onde iria o efeito da poção. O mais incrível, porém, aconteceu exatamente um mês depois da administração do veneno. Durante a noite ele teve uma seqüência de vários sonhos eróticos. Pela manhã sentia um bem-estar especial, uma força renovada se espalhava pelo corpo, um prazer que não podia descrever nem entender muito bem. Aos poucos, enquanto acordava de todo, foi tomando consciência do próprio corpo, até que mentalmente focalizou a região da pelve. O que era aquilo? Não podia ser, a meses não sentia... Seria verdade ou só a imaginação atendendo ao seu mais profundo desejo? Arrancou o lençol, baixou os olhos e confirmou: estava com uma belíssima e espetacular ereção. A mulher acordou assustada com o movimento brusco, acompanhou-lhe o olhar e deu um grito de espanto. Voltou-se para ele, ele retribui o olhar, e em segundos estavam com os corpos engalfinhados, se amando com um ardor que não experimentavam desde as primeiras vezes, ainda adolescentes. Mal terminaram e ele já estava pronto para mais uma sessão, e depois dessa ainda uma terceira. Deixou-a então estirada na cama e saiu para trabalhar. Chegando ao escritório, ainda no corredor cruzou com a secretária do chefe, que portava um decote apreciável e uma saia com uma provocante fenda lateral. Ficou imediatamente excitado. Isso não era comum, pois sempre fora um homem bastante tranqüilo, mas não se importou, devia ser reflexo da recuperação recente da virilidade. Durante toda a manhã, no entanto, sentiu-se atraído por cada mulher que lhe cruzou o caminho, e pela hora do almoço já estava com um nível de libido reprimida tão alto que decidiu almoçar em casa, e lá fez amor duas vezes com a estupefata esposa. O expediente da tarde correu exatamente como o matutino, a ao retornar ao lar jantou apressado, ansioso por estar na cama com a mulher. Ali se amaram mais três vezes, e mais uma pela manhã.
E assim correram os dias seguintes. A esposa fascinada com o efeito que só podia atribuir à poção do índio, que ao invés de matar curou o marido. Que sabedoria daquele velho pagé, não fez o que foi pedido, mas por linhas tortas atendeu seu desejo. Precisava voltar lá assim que possível. Passaram-se algumas semanas, e o frenesi sexual do homem parecia não ter fim, até que o vigor da esposa começou a dar sinais de que não conseguia acompanhá-lo. Fazia um grande esforço para atender ao marido sempre que solicitada, mas aquilo já estava ficando além de sua capacidade. Sentia-se a cada dia mais cansada, as tarefas no trabalho e em casa começavam a atrasar, sob os olhos já apareciam discretas bordas arroxeadas. Até que não suportou mais. Numa manhã de domingo acordou com as carícias do marido, e ao lembrar da partida em três tempos da noite anterior levantou-se apressada e foi fazer o café.
Continuaram fazendo amor diariamente, mas quase sempre a vontade dela acabava antes que a dele, e as recusas tornavam-se cada vez mais freqüentes. No início ele se sentia um pouco incomodado e contrariado, depois foi se irritando, começou a duvidar dos sentimentos da esposa. Não conseguia compreender que era a sua libido que estava descontrolada. Achava maravilhoso que mesmo fazendo tanto sexo com a esposa ainda sentisse calor a cada par de pernas, seios e nádegas que cruzava. Até que numa sexta-feira ligou para casa avisando que iria tomar uma cerveja com o pessoal do escritório e voltaria mais tarde. Quando se deitou, a esposa imediatamente sentiu um perfume diferente.
Pela manhã ela acordou com tosse.
A preparação demorou algumas semanas, mas a coisa era tão nova, tão incomum, tão desesperadora e ao mesmo tempo excitante que para ela pareceram poucos dias. Primeiro planejar com cuidado o método. Tinha que ser tudo muito discreto, não poderia haver de maneira alguma suspeitas sobre ela. Deveria parecer um acidente, ou melhor ainda, morte natural, facilmente explicada pela doença recente. Em seguida começaram as pesquisas, pela Internet, em revistas das mais varidas, entre os conhecidos. Até que descobriu um velho índio que tinha a solução: uma poção que levaria o pobre coitado para a outra vida, não tinha gosto e era impossível de ser detectada em qualquer exame pós-morte. Comprou a preço alto um pequeno frasco e numa manhã de sábado despejou a pajelança no suco de laranja do marido.
A droga demorou algumas horas para fazer efeito. A tosse piorou, as dores se transformaram em cólicas terríveis, depois uma tontura, seguida da vômitos. Mas até a noite o pobre homem continuava tão vivo como sempre. Não tinha jeito, precisava levá-lo ao hospital. Era um tremendo risco, o crime poderia ser descoberto, talvez a poção não fosse tão invisível como garantira o xamã, mas não podia ver o homem que amava sofrendo tanto sem dar-lhe um último socorro. No hospital tudo correu ao contrário do esperado. As cólicas não passavam, a dor de cabeça ficava cada vez pior, o homem já regurgitara todo a bile que possuia, mas os espasmos não cessavam. Não estava propriamente inconsciente, mas a tontura e a confusão mental eram tantas que não conseguia mais conversar. E assim permaneceu por sete longos dias até que numa noite particularmente ruim, lá pelas três da madrugada, adormeceu tranqüilo como não fazia há vário meses. E pela manhã ... acordou melhor. Os dias seguintes foram de melhora contínua, até que voltou ao quadro inicial e recebeu alta dos médicos. A mulher estava ao mesmo tempo espantada e raivosa, não dera nada certo. Não via a hora de voltar até o índio e pedir o dinheiro de volta, além de lhe dizer poucas e boas e fazer uma tremenda propaganda negativa de seus serviços. Agora teria que começar tudo de novo.
Mas havia mais surpresas pela frente. Nos dias que se seguiram, os acessos de tosse começaram a se tornar mais brandos e mais espaçados. As dores de cabeça e pelo corpo reagiam melhor aos analgésicos, a pele começou a recobrar a cor, o apetite voltou, começou a ganhar peso. A mulher adiou a visita ao pagé, esperando para ver até onde iria o efeito da poção. O mais incrível, porém, aconteceu exatamente um mês depois da administração do veneno. Durante a noite ele teve uma seqüência de vários sonhos eróticos. Pela manhã sentia um bem-estar especial, uma força renovada se espalhava pelo corpo, um prazer que não podia descrever nem entender muito bem. Aos poucos, enquanto acordava de todo, foi tomando consciência do próprio corpo, até que mentalmente focalizou a região da pelve. O que era aquilo? Não podia ser, a meses não sentia... Seria verdade ou só a imaginação atendendo ao seu mais profundo desejo? Arrancou o lençol, baixou os olhos e confirmou: estava com uma belíssima e espetacular ereção. A mulher acordou assustada com o movimento brusco, acompanhou-lhe o olhar e deu um grito de espanto. Voltou-se para ele, ele retribui o olhar, e em segundos estavam com os corpos engalfinhados, se amando com um ardor que não experimentavam desde as primeiras vezes, ainda adolescentes. Mal terminaram e ele já estava pronto para mais uma sessão, e depois dessa ainda uma terceira. Deixou-a então estirada na cama e saiu para trabalhar. Chegando ao escritório, ainda no corredor cruzou com a secretária do chefe, que portava um decote apreciável e uma saia com uma provocante fenda lateral. Ficou imediatamente excitado. Isso não era comum, pois sempre fora um homem bastante tranqüilo, mas não se importou, devia ser reflexo da recuperação recente da virilidade. Durante toda a manhã, no entanto, sentiu-se atraído por cada mulher que lhe cruzou o caminho, e pela hora do almoço já estava com um nível de libido reprimida tão alto que decidiu almoçar em casa, e lá fez amor duas vezes com a estupefata esposa. O expediente da tarde correu exatamente como o matutino, a ao retornar ao lar jantou apressado, ansioso por estar na cama com a mulher. Ali se amaram mais três vezes, e mais uma pela manhã.
E assim correram os dias seguintes. A esposa fascinada com o efeito que só podia atribuir à poção do índio, que ao invés de matar curou o marido. Que sabedoria daquele velho pagé, não fez o que foi pedido, mas por linhas tortas atendeu seu desejo. Precisava voltar lá assim que possível. Passaram-se algumas semanas, e o frenesi sexual do homem parecia não ter fim, até que o vigor da esposa começou a dar sinais de que não conseguia acompanhá-lo. Fazia um grande esforço para atender ao marido sempre que solicitada, mas aquilo já estava ficando além de sua capacidade. Sentia-se a cada dia mais cansada, as tarefas no trabalho e em casa começavam a atrasar, sob os olhos já apareciam discretas bordas arroxeadas. Até que não suportou mais. Numa manhã de domingo acordou com as carícias do marido, e ao lembrar da partida em três tempos da noite anterior levantou-se apressada e foi fazer o café.
Continuaram fazendo amor diariamente, mas quase sempre a vontade dela acabava antes que a dele, e as recusas tornavam-se cada vez mais freqüentes. No início ele se sentia um pouco incomodado e contrariado, depois foi se irritando, começou a duvidar dos sentimentos da esposa. Não conseguia compreender que era a sua libido que estava descontrolada. Achava maravilhoso que mesmo fazendo tanto sexo com a esposa ainda sentisse calor a cada par de pernas, seios e nádegas que cruzava. Até que numa sexta-feira ligou para casa avisando que iria tomar uma cerveja com o pessoal do escritório e voltaria mais tarde. Quando se deitou, a esposa imediatamente sentiu um perfume diferente.
Pela manhã ela acordou com tosse.
sábado, 12 de setembro de 2009
O caminho da ciência
Preciso confessar, não sei bem o que responder quando me perguntam sobre minha religião. Não me encaixo nas rotulagens tradicionais, sendo chamado de ateu pelos crentes e de agnóstico pelos ateus. Então vou aqui abandonar as classificações e tentar entender minhas crenças.
Para começar, acredito na ciência. Alguém dirá que esta é minha religião, mas nada pode ser mais errado. A ciência tem algo de fundamentalmente diferente de todos os outros tipos de crença, religiões ou pensamentos esotéricos. Ela jamais pretende ter respostas definitivas para coisa alguma, suas conclusões são sempre provisórias e sujeitas a contestação e é justamente aí que reside sua beleza. Cada nova descoberta ou teoria parte dos pressupostos estabelecidos pelas descobertas e teorias anteriores e ao mesmo tempo serve de base para as seguintes. Assim o conhecimento evolui, se aproximando cada vez mais da realidade, ainda que nunca a alcance completamente.
Pode ser que as religiões estejam certas, talvez as respostas dadas pela cabala, pelas runas, tarô, búzios ou astrologia sejam mais verdadeiras do que as teorias científicas, mas se não forem, não há como descobrir. A ciência pode não dar as melhores respostas, mas ao menos não fica amarrada a respostas erradas. Pode não ser a melhor forma de se alcançar a verdade, mas com certeza é a forma mais segura para não se afastar dela.
E ainda tem mais, historicamente muitas explicações sobrenaturais foram substituídas por novas descobertas científicas, deixando claro a mim que os deuses encolhem conforme a ciência cresce.
Agora sei no que acredito. Acredito que qualquer verdade revelada a algum estafeta divino ou oculta em sinais místicos tem alguma probabilidade de ser boa, mas prefiro apostar as minhas fichas naquilo que minha razão consegue entender, explicar e acompanhar.
Para começar, acredito na ciência. Alguém dirá que esta é minha religião, mas nada pode ser mais errado. A ciência tem algo de fundamentalmente diferente de todos os outros tipos de crença, religiões ou pensamentos esotéricos. Ela jamais pretende ter respostas definitivas para coisa alguma, suas conclusões são sempre provisórias e sujeitas a contestação e é justamente aí que reside sua beleza. Cada nova descoberta ou teoria parte dos pressupostos estabelecidos pelas descobertas e teorias anteriores e ao mesmo tempo serve de base para as seguintes. Assim o conhecimento evolui, se aproximando cada vez mais da realidade, ainda que nunca a alcance completamente.
Pode ser que as religiões estejam certas, talvez as respostas dadas pela cabala, pelas runas, tarô, búzios ou astrologia sejam mais verdadeiras do que as teorias científicas, mas se não forem, não há como descobrir. A ciência pode não dar as melhores respostas, mas ao menos não fica amarrada a respostas erradas. Pode não ser a melhor forma de se alcançar a verdade, mas com certeza é a forma mais segura para não se afastar dela.
E ainda tem mais, historicamente muitas explicações sobrenaturais foram substituídas por novas descobertas científicas, deixando claro a mim que os deuses encolhem conforme a ciência cresce.
Agora sei no que acredito. Acredito que qualquer verdade revelada a algum estafeta divino ou oculta em sinais místicos tem alguma probabilidade de ser boa, mas prefiro apostar as minhas fichas naquilo que minha razão consegue entender, explicar e acompanhar.
sábado, 5 de setembro de 2009
A VOLTA - Parte 2
Atendendo a centenas de pedidos, leia agora mais um capítulo da trama que está abalando os nervos de todos!
Chegou em casa à noite, o marido já dormindo. Deitou-se ao seu lado e adormeceu imediatamente, com medo de que precisasse pensar no que acabara de acontecer. No dia seguinte acordou bem cedo, preparou o café e saiu depressa. Se sentia estranha. Tinha sido infiel e traído seu marido, pior ainda, traído todos os princípios que sempre defendera com tanto entusiasmo. Mas estranhamente não sentia nem uma gota de arrependimento. Ao contrário, ansiava pela próxima oportunidade. O clima no escritório estava tenso, como esperava. Os mais conservadores – ou talvez mais hipócritas – a olhavam com reprovação, outros lhe dirigiam risinhos, as amigas mais íntimas correram a saber como estava se sentindo, mas querendo de fato saber detalhes da tarde de amor. Até que, como era inevitável, cruzou com seu jovem amante. Jamais poderia imaginar que teria aquela reação, mas arrastou-o até um canto deserto da copa e o beijou. Marcaram de sair na hora do almoço.
Depois de algumas semanas de encontros diários nos intervalos ou no final do expediente, o rapaz deu sinais de que não estava mais tão empolgado. Talvez por medo de aprofundar uma relação com uma mulher casada, ou simplesmente porque perdera o encanto, como é comum à juventude. Acabaram não se vendo mais. Em poucos dias, porém, já havia outra vítima sendo caçada, depois outra, e outra. Depois começou a freqüentar bares no final do dia, e terminava sempre num quarto de motel.
No início o marido se sentiu feliz pela mulher estar seguindo a vida apesar de sua doença, por ela estar se sentindo feliz novamente. Mas em pouco tempo começou a desconfiar da causa de tanta alegria. Até que uma noite ela se descuidou demais. Chegou em casa muito tarde, e suas roupas exalavam um cheiro que não era dela. Ele sentiu um ódio profundo queimando suas vísceras, mas se virou para o outro lado e preferiu deixar a discussão para o outro dia. Mas passou a noite toda remoendo, buscando explicações, e pela manhã tinha chegado à conclusão de que não poderia condená-la. A culpa era dele. Tantos meses sem provê-la, e ainda obrigando-a a cuidar dele a todo instante, era natural que ela se sentisse carente e num momento de fraqueza fosse buscar apoio em outro ombros. Contava que sararia logo, e então tudo voltaria ao normal. Mas não voltou.
O tempo passou, ela continuava naquela vida de devassidão, ele continuava fazendo de conta que não via. Sentia-se corroído por dentro, mas fazia um esforço sobre-humano para não demonstrar. Precisava canalizar todas as suas forças para uma recuperação rápida de suas forças, pois só isso poderia salvar seu casamento. Mas é claro que ela não acreditava na sua encenação. Os sinais eram óbvios, ele já não a beijava, evitava até olhá-la de frente. As conversas eram monossilábicas e ele não se dirigia a ela nem para reclamar das constantes saídas e dos horários de chegada, cada vez mais avançados. Ela começou a sentir raiva. Porque ele não brigava, porque não a recriminava, porque não lutava por ela? Estaria satisfeito com aquela situação? Ou quem sabe não se importava? Será que não a amava mais? Já que ele parecia não dar a mínima, se entregou de vez e com mais fervor à luxúria. Agora não era só desejo de se satisfazer, mas também de machucar mais ainda o homem que a ignorava, numa tentativa de reanimá-lo à força. Mas não estava dando certo, e a situação estava ficando insustentável.
Foi quando uma pequena semente de idéia começou a brotar em sua mente. Uma semente de erva daninha, dessas que começam a crescer sorrateiras, por entre as flores, e quando se dá conta já tomou todo o jardim. Se estava se sentindo bem naquela vida, se o marido não se incomodava, porque não assumir logo. Mas não podia sustentar uma mentira para sempre, em breve seus filhos começariam a desconfiar. Era preciso acabar logo com a farsa. Mas um divórcio a essa altura seria quase um crime. Abandonar um homem doente, que dependia dela para quase tudo, que mal podia se alimentar sozinho, seria maldade demais. Era preciso esperar ele melhorar. Mas já se passavam quase seis meses, sem nenhum sinal de melhora, as mesmas dores, a mesma tosse. A mesma impotência. E o pior, sem que se chegasse a um diagnóstico. E se esse quadro se prolongasse indefinidamente? Claro, havia outra possibilidade, se a doença piorasse de vez. Ele já estava bem magro, a pele desbotada, os olhos sem vida. Talvez a doença não evoluísse, mas o corpo fosse definhando aos poucos, até não poder mais sustentar a vida. Ela se assustou, estava desejando que ele morresse? Claro que não! Ou talvez sim. Eram as duas alternativas, a cura ou a morte, ambas fora de seu alcance. Bem, na verdade, não podia curá-lo, mas podia fazer alguma coisa quanto à segunda opção. Como? Além de desejar que ele morresse, estava cogitando facilitar o processo? Que terrível! Pensamento abominável! Mas a erva abriu um pouco mais de espaço. Seria assim tão horrível abreviar o sofrimento de um homem que não parece apresentar nenhum sinal de que voltará a ter uma vida normal, e que ainda por cima carrega para o fundo do poço a vida de outras pessoas? Ou pelo menos mais uma pessoa. Mereceria ela viver pelo resto de sua vida ao lado de um semi-homem, precisando se esgueirar pelas ruas, cultivando sucessivas mentiras, para satisfazer seus desejos? Não era justo. E só havia uma saída. Ele precisava morrer.
Não perca nas próximas semanas o desfecho desta emocionante história...
Chegou em casa à noite, o marido já dormindo. Deitou-se ao seu lado e adormeceu imediatamente, com medo de que precisasse pensar no que acabara de acontecer. No dia seguinte acordou bem cedo, preparou o café e saiu depressa. Se sentia estranha. Tinha sido infiel e traído seu marido, pior ainda, traído todos os princípios que sempre defendera com tanto entusiasmo. Mas estranhamente não sentia nem uma gota de arrependimento. Ao contrário, ansiava pela próxima oportunidade. O clima no escritório estava tenso, como esperava. Os mais conservadores – ou talvez mais hipócritas – a olhavam com reprovação, outros lhe dirigiam risinhos, as amigas mais íntimas correram a saber como estava se sentindo, mas querendo de fato saber detalhes da tarde de amor. Até que, como era inevitável, cruzou com seu jovem amante. Jamais poderia imaginar que teria aquela reação, mas arrastou-o até um canto deserto da copa e o beijou. Marcaram de sair na hora do almoço.
Depois de algumas semanas de encontros diários nos intervalos ou no final do expediente, o rapaz deu sinais de que não estava mais tão empolgado. Talvez por medo de aprofundar uma relação com uma mulher casada, ou simplesmente porque perdera o encanto, como é comum à juventude. Acabaram não se vendo mais. Em poucos dias, porém, já havia outra vítima sendo caçada, depois outra, e outra. Depois começou a freqüentar bares no final do dia, e terminava sempre num quarto de motel.
No início o marido se sentiu feliz pela mulher estar seguindo a vida apesar de sua doença, por ela estar se sentindo feliz novamente. Mas em pouco tempo começou a desconfiar da causa de tanta alegria. Até que uma noite ela se descuidou demais. Chegou em casa muito tarde, e suas roupas exalavam um cheiro que não era dela. Ele sentiu um ódio profundo queimando suas vísceras, mas se virou para o outro lado e preferiu deixar a discussão para o outro dia. Mas passou a noite toda remoendo, buscando explicações, e pela manhã tinha chegado à conclusão de que não poderia condená-la. A culpa era dele. Tantos meses sem provê-la, e ainda obrigando-a a cuidar dele a todo instante, era natural que ela se sentisse carente e num momento de fraqueza fosse buscar apoio em outro ombros. Contava que sararia logo, e então tudo voltaria ao normal. Mas não voltou.
O tempo passou, ela continuava naquela vida de devassidão, ele continuava fazendo de conta que não via. Sentia-se corroído por dentro, mas fazia um esforço sobre-humano para não demonstrar. Precisava canalizar todas as suas forças para uma recuperação rápida de suas forças, pois só isso poderia salvar seu casamento. Mas é claro que ela não acreditava na sua encenação. Os sinais eram óbvios, ele já não a beijava, evitava até olhá-la de frente. As conversas eram monossilábicas e ele não se dirigia a ela nem para reclamar das constantes saídas e dos horários de chegada, cada vez mais avançados. Ela começou a sentir raiva. Porque ele não brigava, porque não a recriminava, porque não lutava por ela? Estaria satisfeito com aquela situação? Ou quem sabe não se importava? Será que não a amava mais? Já que ele parecia não dar a mínima, se entregou de vez e com mais fervor à luxúria. Agora não era só desejo de se satisfazer, mas também de machucar mais ainda o homem que a ignorava, numa tentativa de reanimá-lo à força. Mas não estava dando certo, e a situação estava ficando insustentável.
Foi quando uma pequena semente de idéia começou a brotar em sua mente. Uma semente de erva daninha, dessas que começam a crescer sorrateiras, por entre as flores, e quando se dá conta já tomou todo o jardim. Se estava se sentindo bem naquela vida, se o marido não se incomodava, porque não assumir logo. Mas não podia sustentar uma mentira para sempre, em breve seus filhos começariam a desconfiar. Era preciso acabar logo com a farsa. Mas um divórcio a essa altura seria quase um crime. Abandonar um homem doente, que dependia dela para quase tudo, que mal podia se alimentar sozinho, seria maldade demais. Era preciso esperar ele melhorar. Mas já se passavam quase seis meses, sem nenhum sinal de melhora, as mesmas dores, a mesma tosse. A mesma impotência. E o pior, sem que se chegasse a um diagnóstico. E se esse quadro se prolongasse indefinidamente? Claro, havia outra possibilidade, se a doença piorasse de vez. Ele já estava bem magro, a pele desbotada, os olhos sem vida. Talvez a doença não evoluísse, mas o corpo fosse definhando aos poucos, até não poder mais sustentar a vida. Ela se assustou, estava desejando que ele morresse? Claro que não! Ou talvez sim. Eram as duas alternativas, a cura ou a morte, ambas fora de seu alcance. Bem, na verdade, não podia curá-lo, mas podia fazer alguma coisa quanto à segunda opção. Como? Além de desejar que ele morresse, estava cogitando facilitar o processo? Que terrível! Pensamento abominável! Mas a erva abriu um pouco mais de espaço. Seria assim tão horrível abreviar o sofrimento de um homem que não parece apresentar nenhum sinal de que voltará a ter uma vida normal, e que ainda por cima carrega para o fundo do poço a vida de outras pessoas? Ou pelo menos mais uma pessoa. Mereceria ela viver pelo resto de sua vida ao lado de um semi-homem, precisando se esgueirar pelas ruas, cultivando sucessivas mentiras, para satisfazer seus desejos? Não era justo. E só havia uma saída. Ele precisava morrer.
Não perca nas próximas semanas o desfecho desta emocionante história...
sábado, 29 de agosto de 2009
... e a verdade vos libertará
Há quem achará estranho um artigo meu iniciando com uma citação bíblica. Antes que me perguntem, minhas convicções sobre religião NÃO mudaram. Acontece que essa frase exprime de forma fantástica um tema que já foi tratado por muitos filósofos: a liberdade e o conhecimento são grandezas diretamente proporcionais. Quanto mais informação, quanto mais cultura o sujeito assimila, maior e mais intensa será sua capacidade de avaliar, de escolher, de decidir. Enfim, mais liberdade ele terá.
O que me levou a essa reflexão foi uma notícia veiculada nos últimos dias, de uma professora que foi flagrada e filmada improvisando passos sensuais no palco de uma festa de funk. O vídeo vazou pela internet e a professora foi demitida. Assisti a notícia num desses programas jornalísticos-sensacionalistas de fim de tarde na TV, onde a própria protagonista era entrevistada. Os comentários dos entrevistadores e do público oscilavam entre a responsabilidade de um educador em manter uma postura exemplar e a liberdade de um profissional em fazer o que lhe der na telha quando fora do ambiente de trabalho. Quero tratar da relação do homem com o trabalho – tema que muito me interessa – mas em outra ocasião. Aqui o que importa são dois conceitos que parecem estar sendo tratados de forma bastante distorcida na nossa sociedade.
O primeiro é a liberdade. Ora, há quem diga que ela não existe de fato, que nossas escolhas são o produto inexorável do meio e dos fatos passados. Pode ser exagero, mas uma coisa é certa: ela jamais é absoluta. Estamos sempre submissos a algo ou alguém, a regras, a hierarquias, a códigos morais, até às nossas próprias limitações, medos, dúvidas e dilemas. Mas acima de tudo, a liberdade de praticar um ato está diretamente ligada às consequências dele. Não é possível querer ser livre para exercer qualquer direito sem tomar em conta a responsabilidade que virá atrelada a ele, inclusive no que toca ao reflexo de nossos atos sobre as outras pessoas. Enquanto formos seres gregários, será impossível dizer que “ninguém tem nada a ver com minha vida”, porque vivemos num sistema onde nossas ações afetam todo o nosso entorno. A professora e todos que a defenderam parecem não ter alcançado esta idéia.
O outro conceito que merece reflexão é o papel da educação na sociedade. Me parece que o dever de educar foi todo despejado sobre a escola, e tudo que está fora dela é naturalmente isento de responsabilidade. Principalmente os meios de comunicação. Quando assisti os apresentadores do programa defendendo a atitude da professora, dizendo que ela tem sim o direito de fazer o que quiser da sua vida pessoal e continuar sendo uma excelente profissional, tive a clara visão de que a imprensa tem como único compromisso o entretenimento. Dizem aquilo que o público quer ouvir, para garantir o lucro dos anunciantes. O problema é que a TV se torna o elo que fecha um círculo mais do que vicioso, um círculo pernicioso: a educação formal, tão ruim, ao mesmo tempo em que não ensina, não consegue mostrar as vantagens de se aprender; o povo passa a achar que a ignorância e a mediocridade são coisas boas e desejáveis; a TV, na ânsia de agradar a esse povo, exibe programas inférteis e que estimulam a falta de cultura e bom gosto; com uma programação tão atrativa a TV toma o lugar da escola como principal fonte de informação, ou pior do que isso, torna-se referência para os próprios educadores, e a escola piora ainda mais.
E aqui voltamos ao inicio deste texto. Enquanto a educação não for tomada como prioridade, enquanto conhecimento e cultura não se tornarem valores apreciados, jamais seremos minimamente livres para construir uma sociedade justa onde todos ganhem.
O que me levou a essa reflexão foi uma notícia veiculada nos últimos dias, de uma professora que foi flagrada e filmada improvisando passos sensuais no palco de uma festa de funk. O vídeo vazou pela internet e a professora foi demitida. Assisti a notícia num desses programas jornalísticos-sensacionalistas de fim de tarde na TV, onde a própria protagonista era entrevistada. Os comentários dos entrevistadores e do público oscilavam entre a responsabilidade de um educador em manter uma postura exemplar e a liberdade de um profissional em fazer o que lhe der na telha quando fora do ambiente de trabalho. Quero tratar da relação do homem com o trabalho – tema que muito me interessa – mas em outra ocasião. Aqui o que importa são dois conceitos que parecem estar sendo tratados de forma bastante distorcida na nossa sociedade.
O primeiro é a liberdade. Ora, há quem diga que ela não existe de fato, que nossas escolhas são o produto inexorável do meio e dos fatos passados. Pode ser exagero, mas uma coisa é certa: ela jamais é absoluta. Estamos sempre submissos a algo ou alguém, a regras, a hierarquias, a códigos morais, até às nossas próprias limitações, medos, dúvidas e dilemas. Mas acima de tudo, a liberdade de praticar um ato está diretamente ligada às consequências dele. Não é possível querer ser livre para exercer qualquer direito sem tomar em conta a responsabilidade que virá atrelada a ele, inclusive no que toca ao reflexo de nossos atos sobre as outras pessoas. Enquanto formos seres gregários, será impossível dizer que “ninguém tem nada a ver com minha vida”, porque vivemos num sistema onde nossas ações afetam todo o nosso entorno. A professora e todos que a defenderam parecem não ter alcançado esta idéia.
O outro conceito que merece reflexão é o papel da educação na sociedade. Me parece que o dever de educar foi todo despejado sobre a escola, e tudo que está fora dela é naturalmente isento de responsabilidade. Principalmente os meios de comunicação. Quando assisti os apresentadores do programa defendendo a atitude da professora, dizendo que ela tem sim o direito de fazer o que quiser da sua vida pessoal e continuar sendo uma excelente profissional, tive a clara visão de que a imprensa tem como único compromisso o entretenimento. Dizem aquilo que o público quer ouvir, para garantir o lucro dos anunciantes. O problema é que a TV se torna o elo que fecha um círculo mais do que vicioso, um círculo pernicioso: a educação formal, tão ruim, ao mesmo tempo em que não ensina, não consegue mostrar as vantagens de se aprender; o povo passa a achar que a ignorância e a mediocridade são coisas boas e desejáveis; a TV, na ânsia de agradar a esse povo, exibe programas inférteis e que estimulam a falta de cultura e bom gosto; com uma programação tão atrativa a TV toma o lugar da escola como principal fonte de informação, ou pior do que isso, torna-se referência para os próprios educadores, e a escola piora ainda mais.
E aqui voltamos ao inicio deste texto. Enquanto a educação não for tomada como prioridade, enquanto conhecimento e cultura não se tornarem valores apreciados, jamais seremos minimamente livres para construir uma sociedade justa onde todos ganhem.
sábado, 22 de agosto de 2009
A VOLTA - Parte 1
Nerd também pode ser artista... Além de tocar violão e saber desenhar um hipopótamo muito bem (adoro hipopótamos), estou me arriscando na seara da literatura de ficção. Este é um conto dramático hemi-erótico de muito bom gosto, porque além de Nerd também sou modesto. Espero que gostem.
Começou com um acesso de tosse. Nada fora do normal numa manhã de início de maio, depois de uma noite fria que marcava o princípio de inverno. Depois vieram dores no corpo e uma dor de cabeça que insistia em ignorar os analgésicos. Diagnóstico fácil: uma gripe comum. Só que gripes comuns costumam passar em alguns dias, e aquela já entrava no terceiro mês. Não piorava, mas também não melhorava, e depois de três médicos diferentes e bateladas de exames, nenhuma resposta conclusiva. Mas a vida precisava continuar, então com esforço seguia sua rotina. Ia ao trabalho todos os dias, mas seu rendimento era o pior possível, e já ia ficando preocupado de verdade.
A esposa, também preocupada com aquele quadro no mínimo incomum era, como sempre, um exemplo de bondade e paciência, levava o café na cama, fazia chazinhos e sopinhas e nos fins de semana quase o obrigava a permanecer na cama o dia todo enquanto cuidava dos afazeres da casa.
Aqui precisamos fazer um parêntese para descrever essa mulher. Era realmente bonita, com longos cabelos negros muito bem cuidados, a pele clara e olhos esmeralda. Soube aproveitar com sabedoria o efeito dos anos, aos 38 desfilava uma beleza madura e as curvas acentuadas pelas duas gestações, devidamente moldadas por muito exercício, atraíam olhares por onde passavam. Sua integridade, porém, era à prova de qualquer dúvida. Personalidade forte, decidida, valores morais inabaláveis, tudo isso emoldurado por uma bondade sem limites. Amava incondicionalmente seus três homens: o que compartilhava sua cama e os dois que brotaram de seu ventre.
E já que falamos em cama, precisamos falar também das atividades conjugais de nosso casal. Não se pode dizer que ele fosse uma máquina sexual, mas desempenhava a contento suas obrigações, em freqüência e qualidade aceitáveis. Para ela era mais do que suficiente, já que também não era daquele tipo de espírito e corpo insaciáveis. O mais importante era que houvesse muito amor, e isso ele tinha de sobra. Estavam, então, ambos satisfeitos. Até agora.
No início ele até que tentou, mesmo sem muito ânimo, zeloso em não deixá-la carente, mas a tosse o obrigava a interromper o ato com tanta freqüência que ela bondosamente se conformava e deixava-o descansar. Depois de alguns dias de tosse, dor e frustração, o ânimo acabou de vez. Na primeira vez que não conseguiu uma ereção, depois daquele turbilhão de pensamentos desesperadores que sempre acompanham a “primeira vez”, sentiu-se até aliviado. Afinal, isso um dia iria mesmo acontecer, pelo menos ele tinha a desculpa da doença. Então relaxou e esperou que a saúde lhe voltasse. A demora na recuperação causou, porém, um efeito inesperado na mulher. Começou a sentir um certo desconforto na presença de outros homens, principalmente os mais atraentes, e rapidamente percebeu que se tratava de desejo. É claro que ela rechaçava de imediato estes sentimentos, pois sabia que eram efeitos puramente biológicos de sua abstinência e que deveriam ser tratados com o rigor da razão. Mas não podia deixar de notar que a situação estava ficando cada vez pior. Perigosamente pior.
Naquele fim-de-semana uma colega de trabalho faria aniversário, e o casal foi convidado para um churrasco no sítio da anfitriã. Ela de imediato recusou, já que o marido não estava em condições de passar um dia todo à beira da piscina, seria muito desgastante para ele e ainda mais desagradável para os demais convidados. Mas cometeu o erro de contar a ele sobre o convite. Ele ficou bastante inconformado de que a esposa perdesse a festa por sua causa, primeiro disse que faria um esforço para ir e como ela não concordasse em absoluto, insistiu para que fosse sozinha. No final ela acabou concordando, e no sábado pela manhã, depois de deixar o almoço pronto e um caminhão de recomendações, partiu para a festa.
O dia estava bastante animado, o sol forte, a comida farta, e a bebida também. Deve ter sido algum tipo de fuga, uma compensação por todos os sofrimentos dos últimos meses, mas o fato é que começou a beber mais do que o habitual. Existem vários tipos de bêbados: o que chora, o que fica valente, o chato. Nela, o álcool tinha o efeito de ampliar a alegria, ou seja, era o típico bêbado risonho. Acabou se tornando a alma da festa, brincou desinibidamente com todos, levou crianças e adultos, homens e mulheres às gargalhadas. Mas houve também um efeito secundário: aquele fogo interior que vinha sendo sistematicamente abafado ficou mais forte, ou então a força para dirimí-lo enfraqueceu. Roçava os corpos pouco vestidos dos rapazes, fazia brincadeiras provocantes, desfilava em torno da piscina com um balançado sedutor e tinha muito pouco escrúpulo em exibir suas belas formas. Mas não parou de beber. Até que o corpo não agüentou mais, e as pernas começaram a amolecer. De repente a vista embaçou, a cabeça girou, o corpo caiu e a última coisa que teve certeza de sentir foi um par de braços a amparando e segurando com força. Dali para frente as coisas aconteceram como num sonho, tudo envolto em névoas. Sensações, emoções e fantasias se confundindo, como se fossem feitas da mesma matéria. Sentiu que aqueles braços a carregavam por um caminho longo e tortuoso, sentiu-se despejar em uma superfície macia, sentiu suas roupas se desvanecerem como fumaça, e finalmente sentiu uma intensa alegria penetrando suas entranhas e se esparramando por cada centímetro de seu corpo. E então não sentiu mais nada.
Acordou horas depois, deitada numa cama estranha, num quarto estranho, com um homem estranho ao seu lado, e os dois se vestiam exatamente igual: sem nada. Olhou com mais atenção e reconheceu o rapaz do faturamento. Primeiro sentiu muita raiva. Como ele podia ter se aproveitado assim de sua bebedeira. Mas a ira foi substituída rapidamente por uma sensação nova, que ela logo reconheceu como felicidade. Sem dor, sem culpa, sem remorso. Então tocou de leve no peito nu do rapaz. Ele acordou de imediato, seus olhos se cruzaram com paixão, se beijaram, e partiram para outra sessão.
continua na próxima semana...
Começou com um acesso de tosse. Nada fora do normal numa manhã de início de maio, depois de uma noite fria que marcava o princípio de inverno. Depois vieram dores no corpo e uma dor de cabeça que insistia em ignorar os analgésicos. Diagnóstico fácil: uma gripe comum. Só que gripes comuns costumam passar em alguns dias, e aquela já entrava no terceiro mês. Não piorava, mas também não melhorava, e depois de três médicos diferentes e bateladas de exames, nenhuma resposta conclusiva. Mas a vida precisava continuar, então com esforço seguia sua rotina. Ia ao trabalho todos os dias, mas seu rendimento era o pior possível, e já ia ficando preocupado de verdade.
A esposa, também preocupada com aquele quadro no mínimo incomum era, como sempre, um exemplo de bondade e paciência, levava o café na cama, fazia chazinhos e sopinhas e nos fins de semana quase o obrigava a permanecer na cama o dia todo enquanto cuidava dos afazeres da casa.
Aqui precisamos fazer um parêntese para descrever essa mulher. Era realmente bonita, com longos cabelos negros muito bem cuidados, a pele clara e olhos esmeralda. Soube aproveitar com sabedoria o efeito dos anos, aos 38 desfilava uma beleza madura e as curvas acentuadas pelas duas gestações, devidamente moldadas por muito exercício, atraíam olhares por onde passavam. Sua integridade, porém, era à prova de qualquer dúvida. Personalidade forte, decidida, valores morais inabaláveis, tudo isso emoldurado por uma bondade sem limites. Amava incondicionalmente seus três homens: o que compartilhava sua cama e os dois que brotaram de seu ventre.
E já que falamos em cama, precisamos falar também das atividades conjugais de nosso casal. Não se pode dizer que ele fosse uma máquina sexual, mas desempenhava a contento suas obrigações, em freqüência e qualidade aceitáveis. Para ela era mais do que suficiente, já que também não era daquele tipo de espírito e corpo insaciáveis. O mais importante era que houvesse muito amor, e isso ele tinha de sobra. Estavam, então, ambos satisfeitos. Até agora.
No início ele até que tentou, mesmo sem muito ânimo, zeloso em não deixá-la carente, mas a tosse o obrigava a interromper o ato com tanta freqüência que ela bondosamente se conformava e deixava-o descansar. Depois de alguns dias de tosse, dor e frustração, o ânimo acabou de vez. Na primeira vez que não conseguiu uma ereção, depois daquele turbilhão de pensamentos desesperadores que sempre acompanham a “primeira vez”, sentiu-se até aliviado. Afinal, isso um dia iria mesmo acontecer, pelo menos ele tinha a desculpa da doença. Então relaxou e esperou que a saúde lhe voltasse. A demora na recuperação causou, porém, um efeito inesperado na mulher. Começou a sentir um certo desconforto na presença de outros homens, principalmente os mais atraentes, e rapidamente percebeu que se tratava de desejo. É claro que ela rechaçava de imediato estes sentimentos, pois sabia que eram efeitos puramente biológicos de sua abstinência e que deveriam ser tratados com o rigor da razão. Mas não podia deixar de notar que a situação estava ficando cada vez pior. Perigosamente pior.
Naquele fim-de-semana uma colega de trabalho faria aniversário, e o casal foi convidado para um churrasco no sítio da anfitriã. Ela de imediato recusou, já que o marido não estava em condições de passar um dia todo à beira da piscina, seria muito desgastante para ele e ainda mais desagradável para os demais convidados. Mas cometeu o erro de contar a ele sobre o convite. Ele ficou bastante inconformado de que a esposa perdesse a festa por sua causa, primeiro disse que faria um esforço para ir e como ela não concordasse em absoluto, insistiu para que fosse sozinha. No final ela acabou concordando, e no sábado pela manhã, depois de deixar o almoço pronto e um caminhão de recomendações, partiu para a festa.
O dia estava bastante animado, o sol forte, a comida farta, e a bebida também. Deve ter sido algum tipo de fuga, uma compensação por todos os sofrimentos dos últimos meses, mas o fato é que começou a beber mais do que o habitual. Existem vários tipos de bêbados: o que chora, o que fica valente, o chato. Nela, o álcool tinha o efeito de ampliar a alegria, ou seja, era o típico bêbado risonho. Acabou se tornando a alma da festa, brincou desinibidamente com todos, levou crianças e adultos, homens e mulheres às gargalhadas. Mas houve também um efeito secundário: aquele fogo interior que vinha sendo sistematicamente abafado ficou mais forte, ou então a força para dirimí-lo enfraqueceu. Roçava os corpos pouco vestidos dos rapazes, fazia brincadeiras provocantes, desfilava em torno da piscina com um balançado sedutor e tinha muito pouco escrúpulo em exibir suas belas formas. Mas não parou de beber. Até que o corpo não agüentou mais, e as pernas começaram a amolecer. De repente a vista embaçou, a cabeça girou, o corpo caiu e a última coisa que teve certeza de sentir foi um par de braços a amparando e segurando com força. Dali para frente as coisas aconteceram como num sonho, tudo envolto em névoas. Sensações, emoções e fantasias se confundindo, como se fossem feitas da mesma matéria. Sentiu que aqueles braços a carregavam por um caminho longo e tortuoso, sentiu-se despejar em uma superfície macia, sentiu suas roupas se desvanecerem como fumaça, e finalmente sentiu uma intensa alegria penetrando suas entranhas e se esparramando por cada centímetro de seu corpo. E então não sentiu mais nada.
Acordou horas depois, deitada numa cama estranha, num quarto estranho, com um homem estranho ao seu lado, e os dois se vestiam exatamente igual: sem nada. Olhou com mais atenção e reconheceu o rapaz do faturamento. Primeiro sentiu muita raiva. Como ele podia ter se aproveitado assim de sua bebedeira. Mas a ira foi substituída rapidamente por uma sensação nova, que ela logo reconheceu como felicidade. Sem dor, sem culpa, sem remorso. Então tocou de leve no peito nu do rapaz. Ele acordou de imediato, seus olhos se cruzaram com paixão, se beijaram, e partiram para outra sessão.
continua na próxima semana...
sábado, 15 de agosto de 2009
Uma visão de liderança
A maioria das pessoas é individualmente capaz de tomar atitudes e resolver seus próprios problemas, mas quando estamos em um grupo, acontece um fenômeno interessante, a iniciativa arrefece. Parece que cada um fica olhando para todos os outros esperando uma ação, talvez por medo de ser criticado ou ignorado, talvez por não ter certeza de que sua solução é melhor do que a do colega. De repente alguém vence essa barreira, toma a iniciativa, e todos seguem atrás. Um líder foi parido.
Uma pesquisa rápida entre livros, revistas ou artigos na área de administração mostra que um dos temas abordados com mais frequência é justamente a "Liderança". Características inatas ou aprendidas dos líderes, responsabilidades, atitudes. Mas minha pequena experiência pessoal - porque Nerd tem que ser observador - me mostra que a coisa é bem mais simples. Se tornar um líder não é muito difícil, em especial se a pessoa possuir algumas poucas habilidades. Manter -se na posição ou ser um bom líder depende exclusivamente de boa vontade e visão de coletividade.
As motivações para vencer a tal letargia grupal são variadas. Há os que conseguem ter uma visão mais clara do problema e percebem o quanto é fácil resolvê-lo, mas também há aqueles que simplesmente se importam menos com a opinião alheia e fazem o que precisa ser feito. Há os que percebem claramente a oportunidade de se tornarem líderes, e a desejam, e há os que apenas querem ajudar os pares, encontram a solução e a aplicam. A diferença entre assumir ativa e voluntariamente a liderança ou a assimilar como algo natural e inesperado pode ter relação direta com a qualidade do trabalho futuro, não por uma relação causal direta, mas por indicar qualidades e princípios importantes para o desenvolvimento da atividade de liderar.
De qualquer forma, para se manter como um bom líder são necessárias certas competências que podem ser aprendidas e cultivadas, como a capacidade de ouvir, o carisma motivador e a habilidade de gerenciar conflitos. É preciso também saber lidar com as críticas e até capitalizá-las a seu favor. Porque mesmo que o grupo não tenha sido capaz de tomar a iniciativa de solucionar o problema, não hesitará em criticar quem o faça, por discordar de suas opiniões ou até por mera e vil inveja de sua posição.
A mais importante qualidade de um bom líder é, no entanto, fruto de sua própria consciência. Não há escolas ou métodos para ensiná-la, e só quem é capaz de abrir seus horizontes e entender em profundidade o funcionamento das sociedades é capaz de alcancá-la. É o entendimento de que cada ação de cada membro do grupo deve contribuir para o crescimento coletivo, ainda que aparentemente cause prejuízo individual. Isso porque tal prejuízo é sempre temporário, a longo prazo todos acabam ganhando, assim como benefícios individuais em detrimento do coletivo sempre se acumulam e a longo prazo levam à deterioração, colapso e falência do grupo.
Uma pesquisa rápida entre livros, revistas ou artigos na área de administração mostra que um dos temas abordados com mais frequência é justamente a "Liderança". Características inatas ou aprendidas dos líderes, responsabilidades, atitudes. Mas minha pequena experiência pessoal - porque Nerd tem que ser observador - me mostra que a coisa é bem mais simples. Se tornar um líder não é muito difícil, em especial se a pessoa possuir algumas poucas habilidades. Manter -se na posição ou ser um bom líder depende exclusivamente de boa vontade e visão de coletividade.
As motivações para vencer a tal letargia grupal são variadas. Há os que conseguem ter uma visão mais clara do problema e percebem o quanto é fácil resolvê-lo, mas também há aqueles que simplesmente se importam menos com a opinião alheia e fazem o que precisa ser feito. Há os que percebem claramente a oportunidade de se tornarem líderes, e a desejam, e há os que apenas querem ajudar os pares, encontram a solução e a aplicam. A diferença entre assumir ativa e voluntariamente a liderança ou a assimilar como algo natural e inesperado pode ter relação direta com a qualidade do trabalho futuro, não por uma relação causal direta, mas por indicar qualidades e princípios importantes para o desenvolvimento da atividade de liderar.
De qualquer forma, para se manter como um bom líder são necessárias certas competências que podem ser aprendidas e cultivadas, como a capacidade de ouvir, o carisma motivador e a habilidade de gerenciar conflitos. É preciso também saber lidar com as críticas e até capitalizá-las a seu favor. Porque mesmo que o grupo não tenha sido capaz de tomar a iniciativa de solucionar o problema, não hesitará em criticar quem o faça, por discordar de suas opiniões ou até por mera e vil inveja de sua posição.
A mais importante qualidade de um bom líder é, no entanto, fruto de sua própria consciência. Não há escolas ou métodos para ensiná-la, e só quem é capaz de abrir seus horizontes e entender em profundidade o funcionamento das sociedades é capaz de alcancá-la. É o entendimento de que cada ação de cada membro do grupo deve contribuir para o crescimento coletivo, ainda que aparentemente cause prejuízo individual. Isso porque tal prejuízo é sempre temporário, a longo prazo todos acabam ganhando, assim como benefícios individuais em detrimento do coletivo sempre se acumulam e a longo prazo levam à deterioração, colapso e falência do grupo.
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